7 de abril de 2010

A única exceção

Às vezes a saída mais fácil é sorrir e fingir que está tudo bem. As pessoas cobram o sorriso, cobram que, junto delas, você finja mesmo que você e ela saibam que não está. Mas se a gente sorri, só sorri, as pessoas passam a gostar do nosso sorriso, e uma vez que choramos, elas desistem da gente.
O problema mesmo é o amar.
Não quero que amem meu sorriso. Quero que amem minha inteligência, meu carisma, minha alma, minhas escolhas, quero que amem meu cheiro, meu rosto, meu jeito, mas o sorriso não! Quero que amem - e defendam - minha felicidade, sim, mas não o sorriso. Não é feliz quem sorri. É feliz quem consegue chorar quando é hora, também. É feliz quem sabe sentir.
Mas chegou a hora. Em algum lugar da minha alma está lá alojadinho. Mas temos que arranjar outros meios. É hora de escolher continuar sorrindo ou deixar-se sentir.
Eu sempre vivi assim, mantendo uma distância confortável, e eu achava que era feliz com a solidão, porque isso tudo nunca valeu o risco. Você é a única exceção.
Por enquanto, eu vou sorrindo, com um choro apertado aqui dentro. Sorrindo, com você-sonho aqui dentro. Eu não posso me deixar enganar, eu sei que você vai embora pela manhã.
Eu prometi nunca mais escrever sobre amores que não existem. Você é a única exceção.

PS.: Quase obviamente baseado em "The Only Exception", Paramore.

5 de abril de 2010

Segredo

Mirar teu olhar é meu perigo e prazer.
Prazer se você deixa qualquer vestígio de alma escapar.
Perigo é se eu deixo.

Primeiro-amor II

Aquela eu-menina amava o teu tu-menino.
E eles estão aqui dentro: ela em mim, ele em ti.
E vice-e-versa.

4 de abril de 2010

Literatura

[...]
-És literata.
-Não sou literata...
-Escreves, certo? És, portanto, literata.
-Não é bem assim que funciona... Drummond é literato, Kafka, Orwell, eles são literatos.
-E és o quê se escreves?
-Sou gente, ué.
-És literata.
-Não sou! Literata tem que ser formada.
-Drummond não era formado.
-Drummond é Drummond!
-E tu és tu! E tu és literata.
-Pegue o dicionário. Procure aí: literato.
-L... i... aqui! "Literato: 1. Escritor." Escreves, não?
-Escrevo.
-És literata.
-Sendo assim, aquele cara pichando o muro é literato... e o garçom anotando os pedidos é literato. Isso parece literatura pra você?
-Não vejo por que não.
-Qual a poesia que vês em "um guaraná meza 6" com 'mesa' escrito errado ainda por cima?
-Literatura não é poesia.
-Literatura é o quê, então?
-Tu és a literata aqui, deverias saber.
-Não sou literata. Aquelas filosofias de bar, meros pensamentos, não é literatura aquilo.
-É o quê?
-Sei lá... pensamentos? Poesias?
-Uh, és poeta ainda por cima?
-Não sou!
-És poeta.
-Não sou poeta.
-Fazes poesia, certo? És, portanto, poeta.

[...]

2 de abril de 2010

Adeus

Ei, presta atenção! Você acha que é só ir chegando, deixar que eu te ame e depois sair assim, sem mais nem menos? Precisa passaporte, meu amor. Não é assim, não. Se na portaria te pediram Intenções, Sonhos, Paixões e só te deram passe depois de muita confiança, aqui vai ser pior. Pois é, vai precisar do dobro pra sair da minha vida. Vai precisar devolver todo aquele amor que eu te emprestei, porque eu vou dar pra outra pessoa, se você sair por aquela porta. Vai precisar esperar seu gosto sair da minha boca, e quero meus CDs de volta. Vai precisar me ajudar a tirar esse anel do meu dedo, porque, com o tempo, ele acabou se tornando parte de mim e agora eu não sei mais como vai ser sem ele aqui. Acho que você vai precisar me dar outro, pra suprir a falta desse aqui. Se bem que se você me der, vai ter o mesmo significado que o primeiro... Deixa pra lá... o anel eu compro.
Tá achando burocrático? Pois é, você pediu... quero todos os meus segredos de volta, quero meu corte de cabelo de volta ao que você não gostava, que eu cortei só pra você. Pode ficar com as bandas que eu te apresentei, se não se importar que eu divida-as com você. Pode ficar com o ciúme também... não vou mais precisar dele! O carinho seria uma pena tirar de você, que sempre foi um amor, então você fica com o seu e eu, com o meu, certo? Me deixa com aquele cheirinho no pescoço, pra eu poder lembrar de vez em quando. Ok, isso é tudo?
Ah, e quero parar de te amar! E pare de me amar também! Você não me ensinou a te esquecer! Se bem que eu também não ensinei, não é? Anotado! Na próxima, não esqueço. Mas, enfim, nos dou seis meses pra não pensarmos mais um no outro, é tempo o bastante? Certo. Se não der, tem multa pra voltar: me paga aquele bom café que a gente adora e será sempre bem-vindo de volta.

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Afinal, eu não te amo

[...] Não, eu não te amo. Eu amo meu pai, eu amo minha mãe e meu cachorro. Eu os amo. Eu já tive um namorado, eu o amava, e posso afirmar, com propriedade, que é bem diferente. Eu não te amo. Todos aqueles olhares, tu estavas errado, interpretastes mal. Eu não te amo. Aff, como se fosse proibido olhar pra alguém... És patetico e eu não te amo. Não, eu não quis te ofender, gosto muito de ti, mas somos grandes amigos e nada mais, ok? O quê? Pára de rir! Não é engraçado! Eu sei que fico verborrágica quando estou nervos... digo, digo, nessas situações. Se bem que essa [e uma situação normal, né? Digo, por que não seria? Afinal, estamos nós dois aqui... e somos grandes amigos, certo? Eu não te amo... então, não é uma situação embaraçosa nem nada, não há nervosismo. Só porque entras aqui e trazes teu sorriso (que acho lindo, apesar de não te amar) e dizes tuas palavras igualmente lindas, não quer dizer que eu deva gostar mais de ti. Mas gosto muito, não se preocupe. Todavia não te amo. Quero dizer, só porque esses elogios me fazem bem não quer dizer que te amo, não é mesmo? Eu não te amo. Vou continuar sentada e esperar que o garçom traga-me uma xícara de chá, como pedi, senão vou acabar falando besteiras. Ei, não sorria!! Cadê o garçom? Não sorria! Que sorriso sabido é esse? Eu não te amo!
-Tu odeias chá.
-Eu te amo.

1 de abril de 2010

Abstinência

Ela decidiu que ia passar a formular frases completas na presença dele. Decidiu aprender a agradecer, parar de achar que sua opinião era sempre a certa e parar de amá-lo.
Ela decidiu que toda vez que ele lhe dirigisse a palavra, ela pararia de dar indiretas e que ia resistir ao impulso de agarrá-lo toda vez que o via.
Ela decidiu que ia parar de conversar com ele porque, cada vez que o fazia, caía mais fundo naquilo que chamava (só pra ela mesma) de amor, e, também, porque toda vez que se falavam ela deixava seu olhar aprofundar-se no dele, entregando tudo o que sentia.
Ela jogou fora umas roupas, parou de ouvir a banda preferida dele e nunca mais o viu.
Mas só até a semana seguinte quando ligou desesperada perguntando por ele.

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Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam
E essa abstinência uma hora vai passar... (Pitty)