Me deparo com todas as coisas:
a lista infinda das existências.
Me deparo com todas as coisas
e quereria antes que o acaso,
a fome, a distância e o medo
me impedissem.
Quereria eu não poder tanto.
Nessa infinitude de poderes meus,
sou todas as coisas
nos mais diferentes planos
e por sê-las todas, as sou muito pouco.
Jamais procurei as coisas boas,
quis antes adjetivar com minhas sensações
as coisas, tocar as coisas
Mas nesse tudo-ser,
toquei a concretude das coisas
com a fluidez própria desta coisa que sou.
Sou algo mais do que essas coisas,
sou o toque que existo
quando na superfíce delas.
14 de abril de 2014
A ficção que existe em mim
A ficção que existe em mim
em diálogos internos se interpelando
surgem, repetem, sem fim
cá dentro, seguem como mando.
Contemplo tua face-realidade,
matéria-prima do meu eterno pensar
e jogo fora pra viver mais tarde,
por ser findo, o que posso tocar.
É um lugar que visito todo dia
e imaginá-lo me faz menos rasa.
Cercando-me do que eu própria conceberia,
volto a ela como quem volta pra casa.
Se acredito na fantasia? Não creio.
No plano dos olhos, com prova, não está
Se aceito sua existência e devaneio
é porque só viver é se matar.
em diálogos internos se interpelando
surgem, repetem, sem fim
cá dentro, seguem como mando.
Contemplo tua face-realidade,
matéria-prima do meu eterno pensar
e jogo fora pra viver mais tarde,
por ser findo, o que posso tocar.
É um lugar que visito todo dia
e imaginá-lo me faz menos rasa.
Cercando-me do que eu própria conceberia,
volto a ela como quem volta pra casa.
Se acredito na fantasia? Não creio.
No plano dos olhos, com prova, não está
Se aceito sua existência e devaneio
é porque só viver é se matar.
o beijo
Não posso viver longe das carnes da sua boca
e tudo o que a boca fala é um eco longe da boca
e tudo o que eu, louca, quero é o tanto que não se apouca
e quando essa boca beija, o beijo é parte da boca
(a tentação da boca é o beijo e a sílaba solta).
Da boca escapa na lata: ela clama por outra boca
e sempre que a boca cala é a outra que cala a boca
e as roupas no chão da sala
e as coisas que não se fala
e a carne do corpo, a cara
desembocando na boca, a alma
e aquilo que a boca toca
é tara, é tudo, é dá-la.
e tudo o que a boca fala é um eco longe da boca
e tudo o que eu, louca, quero é o tanto que não se apouca
e quando essa boca beija, o beijo é parte da boca
(a tentação da boca é o beijo e a sílaba solta).
Da boca escapa na lata: ela clama por outra boca
e sempre que a boca cala é a outra que cala a boca
e as roupas no chão da sala
e as coisas que não se fala
e a carne do corpo, a cara
desembocando na boca, a alma
e aquilo que a boca toca
é tara, é tudo, é dá-la.
28 de dezembro de 2013
A mesma e única
Não existe mais casa alguma.
O mundo inteiro está apresentado:
Oriente, Ocidente
Ocidente, Oriente
Nada me é surpreendente.
Nada me faz dar um passo atrás
pra dentro de braços conhecidos.
E todo o mundo está extasiado
com a possibilidade de se apresentar
multinacional, multicultural,
antropofágico, absoluto
e eu só lamento,
eu que tive tantas,
não ter mais casa alguma.
O mundo inteiro está apresentado:
Oriente, Ocidente
Ocidente, Oriente
Nada me é surpreendente.
Nada me faz dar um passo atrás
pra dentro de braços conhecidos.
E todo o mundo está extasiado
com a possibilidade de se apresentar
multinacional, multicultural,
antropofágico, absoluto
e eu só lamento,
eu que tive tantas,
não ter mais casa alguma.
15 de dezembro de 2013
Em minha cidade
Quero esbarrar com todos vocês nas calçadas de São Paulo
e extrair conversa do menor fio de relação.
Vamos rir de novo das velhas histórias,
sentados na mesa do mesmo bar,
aproveitando os vínculos de vida e linguagem.
Muito, muito próximos e honestos.
E rir cantando
E cantar chorando
E chorar brigando
E brigar brincando
E quando for bom amar, amaremos.
Mas se não for e quando cansados,
ao voltarmos pra casa sozinhos
desafiando as duras paredes da cidade
os pesados trânsitos, as baldeações
as lonjuras, as expectativas e esperas
as desgraças, o tédio, o malcheiro e a dor,
a injustiça e a implacável solidão,
pelo menos veremos nos vagões dos metrôs
rostos bastante familiares.
e extrair conversa do menor fio de relação.
Vamos rir de novo das velhas histórias,
sentados na mesa do mesmo bar,
aproveitando os vínculos de vida e linguagem.
Muito, muito próximos e honestos.
E rir cantando
E cantar chorando
E chorar brigando
E brigar brincando
E quando for bom amar, amaremos.
Mas se não for e quando cansados,
ao voltarmos pra casa sozinhos
desafiando as duras paredes da cidade
os pesados trânsitos, as baldeações
as lonjuras, as expectativas e esperas
as desgraças, o tédio, o malcheiro e a dor,
a injustiça e a implacável solidão,
pelo menos veremos nos vagões dos metrôs
rostos bastante familiares.
15 de outubro de 2013
7 de setembro de 2013
Poema de cinco faces e meia
Quando nasci, um anjo torto,
encarregado, pelos céus, de mim
não se ocupou em descer à terra
Fui privada, por negligência,
de saber eu seria gauche
ou se eu nem viria a ser
Cada casa é um inquérito
E a tarde ri de mim azulíssima
ainda que eu nada queira de nada
Estou no bonde cheio de pernas
Pra que tanta perna e tanto bonde
se elas não vão a lugar algum
Meu Deus, por que me abandonaste
pergunta o meu coração
porém meus olhos não perguntam nada
encarregado, pelos céus, de mim
não se ocupou em descer à terra
Fui privada, por negligência,
de saber eu seria gauche
ou se eu nem viria a ser
Cada casa é um inquérito
E a tarde ri de mim azulíssima
ainda que eu nada queira de nada
Estou no bonde cheio de pernas
Pra que tanta perna e tanto bonde
se elas não vão a lugar algum
Meu Deus, por que me abandonaste
pergunta o meu coração
porém meus olhos não perguntam nada
Assinar:
Postagens (Atom)