Quando nasci, um anjo torto,
encarregado, pelos céus, de mim
não se ocupou em descer à terra
Fui privada, por negligência,
de saber eu seria gauche
ou se eu nem viria a ser
Cada casa é um inquérito
E a tarde ri de mim azulíssima
ainda que eu nada queira de nada
Estou no bonde cheio de pernas
Pra que tanta perna e tanto bonde
se elas não vão a lugar algum
Meu Deus, por que me abandonaste
pergunta o meu coração
porém meus olhos não perguntam nada
7 de setembro de 2013
18 de julho de 2013
e o lugar mais frio do rio
I sure know how love works
I've seen all around and in books
I've acted in some pretty nice fights
I've done all that femme fatale thing
while walking and talking fast.
And the smiles and the jokes?
I'm a pro and a cliche.
"The girl who was brains"
but I can't hold this bullshit
for longer than 10 kisses
I wish you'd feel bad for my soul
and be the one who suffers along
But I've done some damage, I know
This soul is sealed, I see no heart
and you wouldn't have a reason to care.
I've seen all around and in books
I've acted in some pretty nice fights
I've done all that femme fatale thing
while walking and talking fast.
And the smiles and the jokes?
I'm a pro and a cliche.
"The girl who was brains"
but I can't hold this bullshit
for longer than 10 kisses
I wish you'd feel bad for my soul
and be the one who suffers along
But I've done some damage, I know
This soul is sealed, I see no heart
and you wouldn't have a reason to care.
20 de junho de 2013
Vai descer!
A cidade tá numa ressaca que só vendo
Toda pichada que só por deus
O ônibus atravessando a via principal
Pessoal aqui se olhando esquisito
Lá trás do prédio, a manhã surgindo
Tomo café lá no serviço mesmo,
senão fica tarde e o ônibus, impossível
E aquele auê de ontem, ein cobrador?
Meus meninos foram, tão tão grandinhos
eu mesma não botava fé, mas pi-pi
cá passa o bilhete, três reais.
Deus ajuda quem cedo madruga.
Quem não chora, não mama.
Toda pichada que só por deus
O ônibus atravessando a via principal
Pessoal aqui se olhando esquisito
Lá trás do prédio, a manhã surgindo
Tomo café lá no serviço mesmo,
senão fica tarde e o ônibus, impossível
E aquele auê de ontem, ein cobrador?
Meus meninos foram, tão tão grandinhos
eu mesma não botava fé, mas pi-pi
cá passa o bilhete, três reais.
Deus ajuda quem cedo madruga.
Quem não chora, não mama.
6 de abril de 2013
Um instante
Tem um instante parado no alto
e observamo-no alertas.
Estamos todos no instante,
pegos na tensão abdominal,
na mordida preventiva da boca,
na mordida agressiva da mão.
É no segundo que o pescoço vira,
que o braço força e o traço
vai a velocidade alguma
porque quer mudar de rota.
O segundo entre norte e sul,
mas não dura: é uma foto.
Aonde foi o instante?
Não foi, decompôs-se
em ritmos desconexos
de cada partícula caótica
e só hão de se encontrar
no próximo compasso do mundo.
e observamo-no alertas.
Estamos todos no instante,
pegos na tensão abdominal,
na mordida preventiva da boca,
na mordida agressiva da mão.
É no segundo que o pescoço vira,
que o braço força e o traço
vai a velocidade alguma
porque quer mudar de rota.
O segundo entre norte e sul,
mas não dura: é uma foto.
Aonde foi o instante?
Não foi, decompôs-se
em ritmos desconexos
de cada partícula caótica
e só hão de se encontrar
no próximo compasso do mundo.
11 de fevereiro de 2013
Gosto de Cereja
Queridos
amigos e familiares,
Se vocês estiverem lendo esta carta,
provavelmente estou morta. Me imaginei agora num caixão aberto, com o corpo
pálido e frio e os olhos abertos, estáticos. É uma visão bizarra: a pessoa que
vejo no espelho sem a vaidade que a este se guarda. Mas de qualquer jeito, não
é assim que estou morta, porque, tal como a vida tem pedaços mórbidos, também a
morte vive um pouco, já que os finados praticamente se materializam na frente
dos vivos que os lêem. Claro que não sei nada disso ainda: escrevo esta carta em
vida, sentada na escrivaninha do quarto com uma caneta que falha sempre. Ou
finjo não saber. Sobre o pedaço da morte vivendo cá entre os vivos: ele mora em
mim.
Tenho medo, porém, porque são quase
seis da manhã e eu estou no quarto, sozinha com essa carta que quase parece um
aval ao Universo para me matar. Por que é que ele quer me levar? Pra ele, tanto
faço. Quer levar-nos todos e por isso é que as carnes são frágeis e as
esquinas, perigosas. Como a vida é pequena e também tudo!
Mas já passo longe do assunto que
pretendi. Vim com o propósito de me desculpar com os que eu amo... mas são
humanos, que importa agora? Que importa mesmo a culpa? E eram desculpas pelas
lágrimas ainda por cima, mas ninguém chora. Será delírio meu? De fora, viver e
morrer dá no mesmo. Na verdade, alguém chora sim. De fato, várias pessoas
choram. Cada indivíduo, vivo ou morto, dessa humanidade chora. Mas choram em
uníssono, de modo que ouço um longínquo zunido e é como se ninguém chorasse.
Nossas dores são tão parecidas –
sempre o amor ferido, o plano falho, os pais, a pequenice – que penso às vezes
que é nossa obrigação cuidar dos ferimentos dos outros mais do que dos nossos,
como se o mundo fosse uma batalha e estivéssemos todos do mesmo lado. Seria um
negócio bonito de se ver e se viver, mas daí eu lembro que a gente sempre
termina só, à noite, pensando e, por mais que alguém trate da nossa fome e do
nosso tesão, ninguém vive do que é o outro. Isso daqui é meu leito de morte.
Lá fora, a cidade está dando seus
primeiros bocejos no escuro. Devo me despedir da cidade? Morro, mas não sou eu que me mato. Quero ficar aqui.
Tenho algum carinho pelas ruas amareladas da noite paulistana e me pergunto
qual será o tipo de dia que vem lá de trás dos últimos prédios. Ouço um
caminhão que passa na rua ao lado. Esses caminhões nunca estão passando na
NOSSA rua.
O dia está se espalhando azulado,
acho que o que me mantém viva é o mistério. Tudo dentro da morte é previsível.
Aqui tudo é visível! Que seja simplório: eu não poderia morrer sem ver, com
esses olhos que a terra há de comer, que clima o dia de amanhã trará. Sinto, ano a ano, as estações se mesclarem. Todos os
consolos genéricos sobre sobreviver por causa dos outros são morte. Permaneço
pra saber com que velocidade o Brasil erradicará a miséria e entender o segredo dos olhos médio-orientais. Essa
noite não.
Se vocês estiverem lendo esta carta,
posso estar viva ou não. Vocês, por sua vez, provavelmente estão morrendo de
rir da minha patética de tentativa de trair a existência. A carta vai pra
gaveta. Abandono-os porque faz-se esbranquiçada manhã.
Acho que vai chover,
Badii.
4 de fevereiro de 2013
Depois de tanto verbo
Recitava
vagarosamente enquanto escrevia. “Tomar um com-pri-mido a cada oito horas.” O
homem do outro lado da mesa parecia em transe. Se fixasse seu olhar em alguma
coisa por alguns segundos sentia que podia vomitar. “Mas pra que esses
remédios, doutor?” O médico tirou os olhos do papel e enrugou a testa, com o ar
paternal e divino que os médicos conseguem ter quando lhe entregam notícias de
você mesmo. Oi, tudo bem? Tudo e comigo,
doutor? “É só pra ficar mais suportável, não tem nada demais aqui.” “Mas eu vou
morrer de qualquer jeito, doutor. Não precisa.”, “A gente já falou sobre isso.
Tome os remédios. Continue fazendo as coisas que gosta. Você falou que foi ao
cinema quantas vezes?” “Oito nessa semana.” “Isso é ótimo! E eu quero que você
marque outra consulta daqui a uma semana, certo?” “Obrigado, doutor.”
A
notícia da doença veio cinco anos atrás. Ele fez todos os tratamentos, mas,
então, dois meses atrás descobrira que não tinha mais como: o mal estava nele
todo. Agora já estava bem acostumado à ideia, embora a trouxesse longe de si,
num fato que sabia ser, mas não tocava. Ele não estava morrendo: morreria. Não
veria essa continuidade de ação até que os primeiros órgãos começassem a
falhar. Claro que às vezes surtava. Que homem fica inteiramente tranqüilo com a
morte lhe acenando ali ao lado, na próxima folha do calendário?
Um dia
chegou em casa e o cheiro de boa comida impregnava o ar – sua mulher fazia de
tudo para agradá-lo, mas também se ficasse parada podia entrar em colapso, de
modo que chegava do trabalho e corria para a cozinha e depois limpava o chão
que já estava limpo. Nesse dia, ele olhou pra ela e ela parecia ter vinte anos
de novo. A vida é uma coisa só quando se está morto. Agarrou-a, tirando a
colher de pau da mão dela. Beijou seu pescoço. Ele também tinha vinte anos.
Ela, no entanto, não sentia a volúpia do fim do mundo: depois de duas semanas,
ela estaria viva e com um filho pra cuidar. Se sentia sozinha, com pena dele e
de si. Foi o primeiro dia em que ele pensou em morte de verdade. Não em como
seria o mundo sem ele, isso todo mundo pensa, mas como seria ele sem ele. A
casa inteira tinha ares fúnebres e nem os pezinhos balançantes no sofá, que não
alcançavam o chão, pezinhos que não sabiam de nada, podiam desafiar.
Mas a
verdade é que pessoas na situação dele vivem até que normalmente e às vezes
esquecem que vão morrer. Mais ou menos como o resto delas, sossegadas em sua
falsa sensação de eternidade. Então, quando ele voltou da consulta e seus
pensamentos mórbidos foram despertados, notou com surpresa que as mortes não
são total breu. Havia pessoas cuja morte era medo e outras que morriam sonhando
e que a morte era desconexa. Pessoas cuja morte tinha um cheiro agradável de
gás. Havia mortes que se deixavam ver, como a sua, e tinham cara de prisão e
tribunal. A dele era melhor: era uma morte justa e Deus mesmo a tinha
designado. Havia pessoas que nunca tinham morrido e então passavam a vida
olhando de lado e tentando descobrir a cara de seu final. Ele sentiu-se grato
porque sua morte tinha atmosfera de hospital, um ambiente que o deixava seguro –
que tolice de vivos! Sua morte era asséptica. Era certa. Iria lá na próxima
semana acertar todos os detalhes. Tinha essa semana garantida. Não podia morrer
a qualquer hora. Se mantia vivo na agenda do doutor Ricardo.
1 de dezembro de 2012
Senhor, piedade!
Ao levantar os olhos à santa imagem
em clamor mudo e desesperado
não se apiede dos vivos,
vagando por aí mesquinhos
chorando suas mazelas pulsantes
suas sanguinolentas batalhas,
deglutindo partes do próprio corpo
mastigando e mastigando
triturando os outros e a si mesmo;
dos vivos que podem sorrir
e, avarentos, não o fazem
ou dos que escolhem morrer
e, avarentos, o fazem
:
se apiede dos mortos,
esquecidos, inventados
e sem direito à ação.
em clamor mudo e desesperado
não se apiede dos vivos,
vagando por aí mesquinhos
chorando suas mazelas pulsantes
suas sanguinolentas batalhas,
deglutindo partes do próprio corpo
mastigando e mastigando
triturando os outros e a si mesmo;
dos vivos que podem sorrir
e, avarentos, não o fazem
ou dos que escolhem morrer
e, avarentos, o fazem
:
se apiede dos mortos,
esquecidos, inventados
e sem direito à ação.
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