28 de dezembro de 2010

Carta aos escritores

Pensadores,

vós que não estais neste mundo por acaso e nem compartilhais deste ar que eu inalo por motivos puramente biológicos. Vós que tendes sempre a preocupação de ocupar folhas e folhas com explicações lógicas - ou não -, belas - ou não -, mas sempre - sempre! - explicações impressivas sobre a vida ao vosso redor. Vós que dedicais momentos de vosso tempo a fim de ornamentar a vida com vossas palavras - e as palavras com a vida - de modo que tudo pareça mais bonito, mais triste, mais real ou que simplesmente torne-se outra coisa. E que continueis exercendo esse trabalho de tal forma que esses breves momentos de comunicação possam ser inteiramente aproveitados e deles extraído o máximo possível.
Depois de tal explicação sobre minha impressão sobre vosso - e por que não 'nosso'? - trabalho, peço-vos somente uma coisa, dessa vez como leitora. Peço-vos que toda vez que um elogio vos for dirigido, que este seja imediatamente direcionado às vossas pessoas como escritor, quanto à obra que se foi lida, e não às vossas pessoas como vossas pessoas. Não sei se fui clara o necessário, mas o apelo aqui vos feito é quanto ao ato de aumentar-se em relação à sua própria obra. Peço-vos que estejam sempre no mesmo - ou abaixo, no máximo - do nível daquilo que mostrais pensar, isso porque, caso contrário, vós pareceis incompetentes ou pior: mostrais aos leitores o quão incompetentes vós achais que eles são. Talvez nesse colocar-se acima da obra e dos leitores esteja o fiasco dos livros didáticos. Por fim, que fique claro que minha queixa não é mais do que uma súplica, já que não o pode ser.

Sinceramente,
da leitora (escritora), Mari.

Sentimento sintético

O homem tolo me disse "eu te amo!"
através das palavras escapadas da sua cara de drama
como se houvesse noticiado algo espantador.
De toda a situação eu ri, sem sorrir.
Ri do que traziam, as palavras, na mão.
O homem tolo me disse "eu te amo... mais que tudo."
como se diria naquelas infames novelas
que ele deve assistir nas suas tardes patéticas
sentado no seu sofá patético com um sorriso na cara
de quem não conhece a tristeza, que se deve aos que pensam.
O homem tolopatético de sentimento sintético,
ele disse "eu te amo mais que tudo no mundo inteiro."
ah, mas que tolo é este que consegue
aumentar a frase e diminuir o amor?
Ri diminuindo-o aos meus pés; que bobagem
ele sempre esteve lá, então
virou menino, menino tolopatético de sentimento sintético
E disse "eu te amo mais que tudo e me ponho aos seus pés"
Menino tolo... tolotelepático de sentimento estático
que me faz agora doer o braço e a caneta pedir pra parar
Foi esse meninohomem que gritou "Eu te amo."
E não há nada que se possa fazer. "Nada."
Não há para onde fugir. "Eu iria atrás."
Não há como esconder... "O quê?"
Que o menino tolopatético telepático me fez escrever pra ele
mais uma vez.

26 de dezembro de 2010

25 de dezembro de 2010

Ensolarado

Nosso nobre protagonista
de nomes mil, mas findos
dos pensamentos mais lindos
que pode um somente homem ter.

O ser que não se deixava brilhar
mas que tinha uma brancura
bem comum em tal localidade dura
e que o vinha às vezes afligir.

Num súbito momento de lucidez
o homem quis deixar o escuro
viu atrás de si um muro
viu a coragem e o sol logo acima

E viu um povo inteiro dizendo pra voltar
Porque o sol queimaria sua pele - e queimou
Porque o sol machucaria seus olhos - e machucou
Porque o calor tomaria seu corpo - e tomou

Mas aguentou aquilo uma tarde toda
E aguentou os gritos da multidão
E no fim da tarde, ao chão
pôde ver sua sombra de homem

Uma sombra enorme de homem.
Uma sombra de um homem enorme.

23 de dezembro de 2010

Exercício vocacional

Primeiras palavras, família e o pensamento mais fofo do mundo. Puro Hobby. Aquelas tardes na casa da vó, brincando por horas com o Fufo(Confúcio), a vontade de ter um só pra mim ditaram Veterinária.
Descobertas e, dentre elas, a disposição das coisas no mundo e na sociedade. Dona de restaurante, dona de hotel, detetive, policial, ainda veterinária, musicista, cientista, médica PS, professora, advogada, juíza, engenheira. Descobre-se que animais sofrem mais do que se esperava e que disponibilizar amor pra eles era o desejo. Veterinária fora.
Então, percebe-se que não se pode fazer tudo e nota-se que as coisas envolvem cursos e têm nomes e são realizadas desde sempre em vários lugares por várias pessoas. 'Ainda tem seis, cinco anos. Até lá refinar-se-á.' Vêm os maduros: Jornalismo, Psicologia e Psiquiatria.
Grudaram-se novos gostos ao ser. Agora só três anos. Um monte de paixões avassaladoras, algumas não-exploradas. Algumas incertas, platônicas. Ainda Jornalismo, ainda Psicologia, Psiquiatria entra em questionamento, Artes Cênicas, Letras, Cinema.

[...]

21 de dezembro de 2010

Criatura

-Você tá falando!
-...
-Você não devia... não devia tá falando...
-Mas eu tô.
-Não tá... você tá...
-É minha voz, não?
-Eu tô imaginando!
-E o som tá saindo de onde?
-Da sua boca, mas...
-Viu?
-Mas você tá bem ali deitado.
-Quem disse?
-Eu tô vendo! Você não tá aqui!
-Mas você tá me vendo também.
-Então, aquela bala...
-Cênica.
-Como? Você tá sangrando! Não pode...
-Balas cênicas machucam.
-É, mas só... personagens! Vo-você tá aqui porque atemporal, você ainda não.. você...
-Na sua cabeça.
-Criação minha?
-Quase inteiramente.

PS.: Acabei de sonhar com isso TAMBÉM. Sonho completamente teatral. Dessa vez sou eu dialogando com o Porto. Vai entender...

Pequenos

Eles se empilham no palco.
-O que os pequenos são? - eu pergunto
-Eles atuam. - responde bravo
-Ok, o que os atores são?
-Pequenos. - ele sorri
-Ah, o que são os pequenos atores?
-Assiste. - ele sorri novamente olhando pra cena

PS.: Acabei de sonhar com essa cena. O 'ele' é o Pedro e os pequenos atores são o Jujubinhas. haha

20 de dezembro de 2010

Destinatário

Mandara uma carta a seu avô, orgulhosíssimo pelo feito. Escrevera cautelosamente, selecionando palavras. Seu avô morava longe, ele não sabia exatamente onde, mas era longe.
Levou a carta ao correio mais próximo. De peito estufado, levara-a feito um campeão que ostenta sua medalha. Virava cada esquina sorrindo para todos e andava com passos largos e animados. Chegou ao correio, deu a última olhada na carta e colocou-a carinhosamente no buraco da caixa. Como se fosse uma despedida, olhava a caixa, imaginando a carta sendo levada e seu avô a recebendo. Novamente um sorriso veio ao seu rosto e o garoto foi-se ainda muito orgulhoso. Passavam-se dias e o jovem passava horas pensando naquela carta; “Ah, que orgulho”! Aquela carta que escrevera tão cautelosamente, aquela que colocara na caixa do correio como se colocasse um bebê para dormir. Aquela carta chegaria às mãos de seu avô...
Mais dias se passavam e ele ficava a espera da resposta. Às vezes até assustava o carteiro com sua ansiedade, mas era em vão. Semanas se passaram duras e demoradamente e a carta não chegava. E quanto ao “Espero resposta”? Seu avô o deixaria na mão? Até que, finalmente, a tão esperada carta chegou. A ansiedade era tamanha que o garoto sequer olhou o envelope. Desesperadamente o rasgou, ansioso pelo que seu avô escrevera. Mas a surpresa foi outra. A carta era de sua tia, convidando-o para o funeral de seu destinatário.


PS.: Pense num texto antigo.

17 de dezembro de 2010

Todos os motivos VII

Meu modo é o avesso do avesso da ironia. A tua compreensão é vasta, me decifras tão facilmente. Ainda assim não te decifras. Ainda assim, tens vontades contraditórias das quais gosto, como as das vezes que me olhas confuso (mais pra si do que pra mim). Todos os dias, me agarras a alma, me ofereces a palma e me acalmas numa doçura tão dura, vivaz de quem vê a verdade, real. E todos os dias viras pensamento, viras cogitação e viras-te pra mim num sorriso como o de quem sabe tudo o que há pra se saber de mim.
Há problemas que trazem prazeres, problemas que substituem coisas que faltam. Deixam de ser problemas. Há momentos que ouso dizer - e volto a dizer - que eu e você somente, num plano único de duas faces seríamos nós. Esses momentos acabam com o tocar do telefone ou cada vez que a janela do msn chama e não é tu. Notar a utopia que é isso tudo doi. E quanto maior a dor, maior a quantidade de endorfina que vem a seguir.

12 de dezembro de 2010

Sapato Novo

-E aí, tudo bem?

-Bem, como vai você?
(Levo assim, calado, de lado do que sonhei um dia como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar. Poderia até pensar que foi tudo sonho. Ponho meu sapato novo e vou passear, sozinho, como der, eu vou até a beira.)

-Tem certeza? Você tá com uma carinha...

-Besteira qualquer, nem choro mais. Só levo a saudade(, morena,) e é tudo o que vale a pena.

6 de dezembro de 2010

Eu te amo mais do que amo

Foi-se estreitando a nossa relação à medida que crescia.
O inferno são os outros.
De qualquer forma, não tem mais espaço pra mim aqui.

Pra minha beleza diferente
que uns diriam quase-feia

Minha inteligência diferente
que uns diriam quase-burra

Minha simpatia diferente
que uns diriam quase-chata

Minha música fora da lei
foi presa

Não tem espaço pra uma pessoa inteira
complexa
viva.

É hora de te deixar ir,
mesmo que tu voltes depois de um tempo.
Mesmo que seja momentâneo,
é hora de me deixares ir.

Embora eu não queira.
Embora sejas minha maior fonte de afeto.
Embora eu te ame,

é hora de te deixar ir
e eu não vou deixar.

2 de dezembro de 2010

Vácuo

Quase a ponto de implodir com pressão por todo lado. As vísceras vão sendo esmagadas entre a pele e os ossos. O cérebro se desfaz. É só uma ilusão passageira, uma impressão que se sente na pele e que - espero - vai embora cedo. Até amanhã sara. Até casar sara. A pressão faz doer os ouvidos, vinda de todos os lados possíveis. Lá fora tem pouco. Ainda assim, implodo. Aqui dentro tem nada.

1 de dezembro de 2010

Bem-me-leve

perfume atrás da orelha
vestido bem vestido
um sorriso no rosto
um punhado de amigos
que é pra,
se acaso eu te encontrar um dia,
tu ver como eu ainda tô bonita [Apanhador Só]

30 de novembro de 2010

Outra média

Não a de café-com-leite, embora envolva-a também.
Já vai dar um ano inteiro
E uma metade de sentimentos por vir
Na média morrerei com 28
ou lá pararei de pensar.
E de sentir.
Melhor não.

Dá até pra ver umas constantes
mudanças aqui, amores lá
e o número varia
e o tema varia
e eu vario.

Daqui pra lá.
Aqui, ali ou em qualquer lugar.
São 12,5 por mês
São dois meios do inteiro.
E intero o roteiro
vivendo.

29 de novembro de 2010

Saudade

Quem disse que eu deixo
e que não me queixo
se você me deixar?

O mundo é tão duro
e tem pouca gente
pra gente amar

Então se me foge
eu perco a poesia
a mania de existir

Eu perco esse brilho
Essa alegria que me rege
A cor que me protege

Sem você ainda sou eu
Mas sou eu-pura
não-humana, eu-dura

Eu-homogênea
eu com a cor daquilo
que o mundo me impõe.

27 de novembro de 2010

Clareira

Teu encanto é filho pródigo do acaso
Por culpa dele virei sua remetente ignorada
Sua remetente que, por falta de selos ou de coragem
termina por transformar as cartas em poema

Tuas reflexões pra mim são aleatórias
Porque, de tão emocionais, fogem às contas
E eu não consigo entender, não consigo.
E o que eu não entendo é aleatório.

Não sei quantas horas tem seu dia
Sei que cada uma delas não é em vão
Sei que teu modo de ver o mundo é uma das poucas coisas
que não compreendo, mas que me fascinam

...no tempo
cadeia das horas
eu meço no vento
o passo de agora [Marcelo Camelo]

Rápido e rasteiro

Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
Aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida. [Chacal]

22 de novembro de 2010

Sorrindo

Ela anda sorrindo
Come sorrindo
Cumprimenta sorrindo
Despede sorrindo
Ela tenta sorrindo
Ela é triste sorrindo
Fala sorrindo
Conquista sorrindo
Se apaixona sorrindo
E morre sorrindo

E todos esses sorrisos ela dá sorrindo.
O que é raro.

A maior agonia

Olhe o relógio. É hora de ditar vontades.
Os ponteiros batem, eu vou me embora.
Meus pés doem e eu quero a minha cama.
Preciso comer alguma coisa. Decida-se logo.
Você sabe, amanhã eu trabalho,
então se você for demorar mais que meia hora,
me avise e eu vou-me embora.
Pelo menos, deixe-me saber se você vai responder
porque se não for, meu tempo é à toa.
Não franze a testa desse jeito e nem me olhe por baixo
Minhas mãos agarram o céu, eu te sinto perto.

-Eu te quero agora.

Que estraçalhem os relógios.

20 de novembro de 2010

É suspiro

O abraço dele é suspiro. Vem de manso e, numa parábola, seu ápice me inclui também. Esse mesmo abraço ondula. Seu rosto acaricia o meu algumas vezes, e algumas vezes inspiramos e expiramos, antes de me deixar ir. Seus braços contrariam seu nome e são quase leito. Às vezes quero agarrá-los e beijá-los subindo aos ombros. Quero seu cheiro sejá lá qual for. Seu abraço quer dizer tudo o que ele sente em alguns segundos. O significado mais profundo é daquilo o que ele tem em frente. Em mente. Ele é tão momento. Ironicamente, ele tem os tempos entre os dedos. Ele faz o que quiser. Em cima de uma caixa, de um livro, no chão. Ele tem todas as dimensões. E isso tudo ele me conta, quando seus braços envolvem minha cintura e sorrimos juntos. Conto a ele uma outra porção de coisas. Nosso abraço é nossa média.
Ele me solta e eu já sou outra. Meus braços tendem a escorrer levemente pelos dele, na tentativa infantil de permanecer, mas já é tarde. Meu corpo deseja guardar aquilo que, de todas as formas, lhe faz tão bem. Não consegue. Seus olhos ditam a hora de ir. Seus olhos vêm o mundo inteiro e o momento é todomundo. Em outra situação, quem sabe. No contratempo da vida nos encontraremos. Numa terra branca, sua mente e a minha, seu corpo e o meu, viveremos sem os pudores que o mundo nos enfia pela goela. Numa terra branca de nome imaginação. Mas tem tanto lá fora. Tem tanto amor. Tanta informação. Tanta gente. Tanta vida que meus braços são pequenos. Ainda assim, o abraço e transmito nada, fingindo ser muito só pra prendê-lo aqui.

Triste, triste suspiro...

Noutro plano,
te devoraria
tal Caetano
a Leonardo di Caprio[Djavan]

Quebrando a promessa

Foi bom conversar contigo.
Foi bom poder gritar meus pensares.
Depois cansei, peguei nojo.
E nunca mais quero te ver, de fato.
Pois te odeio.
E ver tua imagem virtualmente
ou o medo de te ver realmente
me fazem tremer de horror.
Mesmo assim foi bom.
O que não diminui meu ódio.
Você trouxe à tona os cheiros que eu não gosto
a vermelhidão da tua pele é feia
é vulgar e sempre traz segundas intenções asquerosas.
Eu me prometi não escrever sobre você
porque eu escrevo sempre fundo na carne.
Mas não pude te esquecer
e me enojo por não poder.
Te odeio.

18 de novembro de 2010

Palavras, escritos.

Palavras, escritos.
Corre uma gota de suor pela face. E corro eu atrás da vida. - ou corre ela atrás de mim? Incessante. Feito um puzzle torto onde nada parece se encaixar. Tu tens que ver do ângulo mais estranho, virar a peça de costas, cortá-la, moldá-la. E não há, de fato, modo correto de encaixe. A vida é tão bela.
Palavras, escritos.
És cego e dessa tamanha escuridão que te envolve, te achas rei. Mal sabes tu que me libertas aqui fora. Tem uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Tem uma luzinha piscando de vez em quando. Sou eu. E tu voltarás a ver.
Palavras, escritos.
Se aproximam mais de mim, cada vez que és meu. Cada vez que enxergas ou quando, apalpando a escuridão, agarra a minha mão. Se lotam de verossimilhança quando, tão ingenuamente, você me faz escrever sobre coisas que antes eu escrevi sem propriedade alguma. Agora eu sei.
Palavras, escritos.
São todos teus.

15 de novembro de 2010

Arrepio

Gabi tinha um amor. E não importava quantas vezes ela tivesse que ser derrubada, ele parecia prevalecer. Lucas era o único que não notava. E ela gritava tão alto que não tinha como ele não ouví-la. Mas ele não ouvia. Ele havia dispensado-a diversas vezes; repetidamente, negava a possibilidade da sua própria felicidade. Gabi era bonita até. Era legal até. Até que lhe fazia bem. Mas ele não via. E ela não se importava. Estaria sempre lá pra quando ele conseguisse perceber o quanto ela precisava dele. De fato, nem Gabi sabia por que gostava dele daquele jeito. Ela sabia que queria suas almas tão entrelaçadas quanto seus corpos e, assim o abraçou. Mas ele não a sentia. "Você não se arrepia? Eu canto alto e claramente que estarei sempre te esperando. Você não se arrepia?"
Ele não se arrepiava. Ela chorava, indignada. Suas amigas reclamavam porque Gabi não deveria se desvalorizar assim, não deveria se entregar tão facilmente. Ela não ouvia. Mas nada disso realmente importava pra ele, porque ele poderia chamá-la a qualquer hora que quisesse, e não importava o quão cansada ela já estava de sempre terminar sofrendo, ela iria. Mas ele não via.

"Don't you shiver
Sing it loud and clear
I'll always be waiting for you"[Coldplay]


As araras

Cenário verde
Criança de vestidinho come um sorvete
Pássaros gorjeiam, são araras tão azuis
Os pais da menina sorriem
Gorjeiam; um amigo mais velho
Eu vejo, pega a menina no colo
brinca com o pai da menina que ri
Teriam a mesma idade a menina e o amigo
mas não pode ser com aquelas rugas
com aquele cabelo grisalho...
o olho é mais azul que o azul-arara, mais claro
e elas ainda gorjeiam.

Mas o cenário acinzenta-se
apesar dos mesmos traços italianos
A menina nem cambaleia nem traz sorvete
Vejo a jaula das araras azuis ao longe
Foi-se frescor que trazia sorriso
Não há mais colo pra menina
Não há mais idade também, nem existência
O amigo ainda tem rugas, ela se lembra
E os cabelos ainda trazem o grisalho eterno
O olho é tão azul quanto o azul-arara, ambos fenecem.
Não mais gorjeiam.
Nem as araras são eternas.


2 de novembro de 2010

Cor e nota

A cor é a nota. E através dessa percepção sinestésica, eu sei quase naturalmente que as cores que se casam são equivalentes às notas e suas harmônicas. De cada pincelada, vêm as luzes naturais e os acordes delas, e as combinações delas que, aplicadas ao ambiente, soam música. A luz é o som. As fotos são músicas. E eu canto as paisagens, eu fotografo o amor e pinto o sonho. Tiro dele todo aquele tom de sépia, aquela sinfonia triste de quem almeja a existência e transformo em vida real. Quem fotografa, escuta. Quem vive, canta. Quem dá o corpo de espelho pra luz natural que vem das coisas, compõe sempre uma obra. Pincela e nunca apaga a tinta que firmou na tela. Eu vejo tudo agora e ninguém pode contestar minha certeza. Eu ouço tudo e nada seria tão real. É o tato com tudo, contudo, que me faz humana.

Les temps sont durs pour les rêveurs

-Ela está apaixonada.
-Mas eu nem mesmo a conheço.
-Oh, sim, você a conhece, sim.
-E desde quando?
-Desde sempre, Nino, desde sempre... Nos seus sonhos.

[Le fabuleux destin d'Amèlie Poulain]

31 de outubro de 2010

Nirvana

Ter (.)
É meu maior defeito (,) (.)
a incapacidade de não pensar (.)
é minha maior qualidade (.)
de ser profana (,) (.)
a mão, a mãe, a matéria (,) (.)
o agora (.)
inalcançável (.)
nirvana. (!)



PS.: Só por curiosidade... como você leu?

29 de outubro de 2010

Onipresença

-Essa foto... quem tu vês?
-Ele.
-E nessa?
-Não é ele, não?
-Hm... te contei aquela história do moço que uma vez...
-Ele faz isso.
-Porra, e em todas as músicas geniais, e quando a tua cabeça roda e você consegue pensar em vários objetivos distintos, qual é o maior deles?Ele? E quando você quer alguém por perto, quem é? Quem é sempre?
-Ele.
-Escreves pra ele?
-Escrevo. E não só por ele.
-E por quem?
-Escrevo a minha vida toda... e ela costuma ser dividida em partes. Sou meio esquizofrênica, compartimento, separo, vida-de-cá, vida-de-lá... pessoas diferentes. Escrevo-as... separadamente, escrevo minha família, escrevo a música e escrevo política. Escrevo-as todas.
-E ele?
-Está em todas.

28 de outubro de 2010

Oxigênio

Eu pirei foi na tua forma de ser com facilidade tudo o que eu não sou e queria ser. Eu andei pelas mesmas ruas que eu tinha andado antes e as luzes pareciam mais fortes e eu parecia mais embriagada. As moças bonitas de lá vieram me certificar de que você era tudo aquilo que parecia ser. Eu sentei num bar qualquer e a noite passou voando e a minha mente foi parar longe. Uns moços ao lado fumavam uns beques numa tentativa desesperada de se achar em algum plano. Um cumprimento pra eles foi o bastante para amigarem-se e aquilo se encaixou como se nem fosse a única noite. As ruas ficavam mais escuras à medida que as janelas das casas se apagavam egoístas... sobrou a luz da Lua, sozinha. Ela me acompanhou a passos tortos até em casa e eu tirei uma foto do chão. Eu disse palavras que eu nem sabia o significado e fui dormir. Aquela noite, alucinei. Eu acreditei em algumas coisas que não eram verdade e, enquanto o carro zunia pela estrada limpa, eu só podia pensar no quanto eu gostaria de te achar aí, a quilômetros de distância. Eu comi e nem senti o gosto. Eu fui vivendo.
Eu nem sei quem és... eu sei das coisas que te definem e sei que gosto delas. Eu andei e vi casas de diferentes tipos e eu encontrei todas as características que eu queria sugar em ti. Somos elásticos. E vai cabendo mais e mais informação. Eu fui sugando um pouco de cada um e cuspindo um pouco de cada um e eu nem sei se sobra alguma coisa de você. Só sei que teu gosto é bom e meus pulmões não se irritavam com nenhuma dessas coisas que deveriam se irritar, porque eras oxigênio, oxigênio puro! E oxigênio é tão inflamável...

PS.: Alvo.

27 de outubro de 2010

Fora-de-si

Eu gosto de quem eu conheço fora-de-si. Eu gosto de quem grita, mesmo com decibéis mínimos.
Gosto de quem gosta, de quem quer, de quem exclama. São os indignados que me assustam, que me tentam, são quem quero. Me apaixono pelas exceções, pelos condoídos, pelos sozinhos e pelos loucos. Me apaixono como quem põe uma bandeira num estandarte dizendo 'eis aqui um problema!' e, sabe, não estou disposta a resolvê-lo. Estou disposta a deglutí-lo; devorar vorazmente cada parte problemática e fascinante da sua inteligência que eu admiro. Cada esquininha da mente, cada memória... E quando se vai o pensamento de primeiro instante, quando se vai a impressão e fica a tinta, cravada e pintada até borrar no papel-coração, significa que sobraram mistérios e olhares, sobrou admiração. Mesmo que o amado volte a si novamente, já o decifrei e ele vem sempre com novos problemas. Fica dentro-de-mim quem tem um pézinho sempre fora-de-si.

26 de outubro de 2010

Borboletas

Mário resolve brincar com as crianças e diz para a Silvia, com seu tope de fite no cabelo:
-Meninas têm borboletas na cabeça...
Esperta, ela devolve:
-E o senhor, o que é que tem?
-Idéias - ele responde.


PS.: Retirado do livro "Ora bolas!", o que faz com o que o Mário citado seja o Quintana.

21 de outubro de 2010

Abraços

Já escrevi teus sorrisos
Teus mimos, teus olhos
Teus gritos que choro
Teu jeito de ser

O papel está completo
Repleto, decerto
De ti, de tão perto
Do que eu pensei

Então, falarei dos longíquos
Abraços oblíquos
Lindos, oníricos
Que eu ouso te dar

Cantarei nossas tardes
E o alarde que trazes
Esse mar de lilases
Que é poder te tocar

De tal modo que o meu,
ao passo que é seu
já que a vida te deu,
coração venha a bater.

E é nesse ritmo
Tão nosso e tão íntimo
Que o vão fica ínfimo
Entre teu corpo e o meu

Até que se tornem
Teu nome e meu nome
Um terceiro homem
Que chamo de amor

E até que teus braços
Querendo meus laços
Siga em passos
A caminho dos meus

18 de outubro de 2010

Recife

Peguei o avião
que decola tão-com-pressa.
Sinto um frio na barriga.
São Paulo me espera
Tão bela e familiar
rotineira e minha.
Nunca fui aventureira, sabe?
Sempre quis colo-de-vó,
almoço de domingo
e foto de família.
Estranho sentir assim:
tão normal!
Diferentemente da ida,
o coração não bate.
Acho que ficou em Recife.

Rei de mim

É longe de casa. Outro sotaque, outras cores, outras caras. É longe de mim. Não me sinto, não me ouço. Mas as coisas vão acontecendo e se encaixando e, então, eu percebo que é perfeito! É perfeito porque é real. E eu percebo que por aqui dizem o que eu penso e sentem na mesma frequência com a qual meu coração bate. Eu ouço. Sou eu. Meu lugar. Não deveria ser, de fato, já que em meus papeis consta que o primeiro lugar que vi ao abrir os olhos pela primeira vez foi outro. Que exagero! Lá é tão meu... Tenho eu dois lugares? Ou a saudade me faz superreagir?
Só sei que sem aqui é só silêncio e meus ouvidos são raivosos em meio a ele. Só sei que encontrei aqui uma normalidade com a qual se encara as coisas que eu penso - e que normalmente seriam absurdas - que me faz muito bem. Não posso mais ir. Eu sou o que vocês são. Não soltem da minha mão. O mundo obriga, mas seja lá onde for, permanecerei eu, permanecerei assim. Em meio a tantas diferenças, pelo menos eu sei que em algum cantinho disso aqui, àlgum lugar pertence um pedaço de mim que é tão pedaço como qualquer outro. Hei de me acostumar como fui acostumada antes de saber. Um dia eu volto e o mal terá fim. Um dia eu volto. Sim, volto como um rei que volta a seu povo. E é isso que serei: rei. Rei de mim.


Eu não vou mudar, não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
não vou ceder.
Deus vai dar aval, sim
E o mal vai ter fim
E, no final, assim calado
Eu sei que vou ser coroado
Rei de mim! [Marcelo Camelo]

11 de outubro de 2010

Sério

-As palavras de antes não mais me servem. As pessoas param no tempo e me desinteressam. Quero nunca parar. Cada passo é um suspiro, é um olhar, cada passo diminui a distância entre eu e aquilo que eu nem sei o que é, mas que tenho certeza: quero. São experiências e experiências e eu vou acabar nunca chegando.
-Eu brinco de pensar e nem sequer levo a sério. Eu brinco de viver e não levo a sério. Eu brinco de brincar e brincar. E nem isso é sério. Vem tudo seguido de uma risadinha como a de quem pede aprovação. E a cada passo eu peço. Eu grito. Choro. Finjo. Na falta de fonte, em vez de criar, copio. Em vez de pensar, falo. Em vez de viver, brinco. E nem isso é sério.
-E o que você quer?
-Nem sei.

Infinitamente

-Você vai viver para sempre.
-Se acreditar nisso, você vai sofrer... vai sofrer muito mesmo quando eu me for.
-Não vou. Dentro do meu coração você vai viver pra sempre.
-Uma hora você vai embora, uma hora seu coração vai embora também.
-Aí você vai ficar pairando por aí...
-Infinitamente?
-Não... até achar outro coração pra te guardar.
-E aí eu entro...pela boca?
-Pelos olhos, pra isso as fotos.
-Eu sou tão amável assim? A ponto de cativar quem nem me conhece?
-Muito mais do que isso, creia.
-Vou pairar por aí por pouco tempo... nosso amor fica pra sempre.
-Com quem?
-Em tudo.

"Me responde, por favor.
Pra onde vai o meu amor quando o amor acaba?" [Chico Buarque]

9 de outubro de 2010

Meu reino

Lá é o reino do conforto.
Nada falta
Esforço, quase não precisa
E pro que precisa,
há sempre este exército de corações
pronto pra te defender de tudo.

Lá é o reino da alegria
Amor não falta
A única imagem que se precisa
é o retrato perfeito da própria alma
E pro que não é,
é sorriso, sorriso de apoiar.

Lá é o reino do passado
Fartura não falta
Só precisa sentar-se em volta da távola
A pensar, mas a pensar
E pro que não é pensamento,
é dizer e dizer e dizer.

Lá é o reino da vida.
É meu reino.

6 de outubro de 2010

42

Estou feito criancinha, emburrada por não entender. Cruzei os braços, briguei com o mundo. Eu odeio as coisas que eu não sei! Eu odeio não saber se elas são coisas mesmo. E o tema da indignação hoje começou pequeno. Um bit, um átomo! Odeio bits e átomos! Minhas palavras são bits, oito pra cada letra, nove pra não ter erro. É muita coisa! Ainda mais infantilmente, assumo que é mais do que as calorias que eu poderia ingerir num dia, é mais do que as vezes que eu posso piscar os olhos por dia e mais do que o número de objetos que tem no meu quarto. Só não é mais do que os átomos! Estes são minha desgraça! Penso agora numa bolinha rodeada de pequenos objetos em órbita que é o que posso fazer pra não me desesperar tanto. Mas sabe? Essa bolinha que imagino - do tamanho da minha mão -, é feita, cada parte dela, de milhões de átomos! E lá vem a coceira mental de novo!
"Um corpo tende a ficar em movimento se estiver em movimento e em repouso, se estiver em repouso." Mas, enfim, quem pôs os elétrons na órbita daquele núcleozinho miserável. E digo mesmo! Pra quê estudar tudo isso? Me atormentam! Quero saber mais! E a discussão torna-se grande, vem a maior das questões. E eu não sei respondê-la! Não sei! Imagine uma caixa. Dentro dela uma bolinha e dentro da bolinha, nós. Ok, posso perfeitamente fazê-lo. Mas o que há depois da caixa é muito mais fácil de entender do que saber o que há depois do universo. Sim, a caixa é meu universo. E o que direi ainda da existência? Necessita de um espaço físico, certo? Onde este acaba? E se ele é só uma partícula de outra coisa ainda mais gigantesca, de um outro átomo, dessa vez milhões de vezes maior do que o nosso. E isso me faz pensar nas galáxias existentes dentro de cada elétron... e, ok, esta conversa está ficando estranha! Acho que cobro muito da humanidade, que nem sabe o que é luz e ainda não resolveu seus problemas mais simples e de tamanhos aceitáveis, relativamente. Mas como dizer onde acaba algo que existe e onde começa a existir as coisas inexistentes. Coisas inexistentes NÃO existem!! Não existem, me ouviu? A raíz dos números negativos, simplesmente, NÃO existe! E se não existe, por que citá-la? Por que dizer da sua inexistência? As coisas inexistentes são infinitas. Simplesmente, TODAS as coisas que não existem não existem e, sendo assim, são muito poucas as que existem perto das que poderiam existir e... ok, respire senão você acaba pensando no final do pi, que há de ser uma medida exata!, e aí lá vem mais um texto inteiro e lá vem mais perguntas e cada vez menos respostas. E, para parar por aqui, porque já cheguei em casa e a ponta do lápis vai engrossando e a paciência esvai-se e a curiosidade, firme, permanece... para parar por aqui devo dizer que, se não for possível encontrar respostas, que, pelo menos, parem com as perguntas para que eu durma em paz! Obrigada.

PS.: Tudo bem, não foi bonito, nem legal quanto podia ser, mas eu PRECISAVA esvair minhas indignações quanto ao mundo.

5 de outubro de 2010

Ele

Ele é tão real que seria impossível descrevê-lo e a forma do toque da pele dele na minha é tão toque, é tão forma, que nem precisa da imaginação. Eu também não preciso criar as palavras que ele me dirige ou os olhares que ele me lança porque existem, de fato. E como falar ainda de uma beleza tão diferente, da beleza do agir dele, da beleza do pensar dele... como dizer da influência daqueles olhos nos meus pensamentos de forma correta? Como dizer? E como explicar que ele é meu, tão meu, mesmo que só pra mim e que é ele e só ele que me encaixa? Devo dizer ainda que eu gosto de cada uma das suas qualidades e gosto mais ainda de como elas combinam com os defeitos e de como, estes, são só o exagero das coisas boas. Hei de dizer, por fim, se eu puder me parar, que ninguém nesse mundo inteiro poderia sentir tanta necessidade dele como eu sinto. Ninguém precisaria tanto da presença dele como eu. Não digo. E na ausência de explicação, vivo. Só. E só vivo só. No vazio dado as palavras, fica o silêncio, aquele olhar, aquele sorriso. As palavras têm saudade.
E assim permanecem, porque uma, só uma, me serve: amor.

30 de setembro de 2010

Você sorri

Só eu sei o que se passou pela minha mente no momento em que seus olhos de desafio me miraram perguntando insistentemente sobre quem era ele que vivia falsamente em minhas retinas, criado por mera utopia. Juro que não sabia se mentia, se dizia a verdade, mas sei que sua impaciência me fazia mais inerte ainda, sorrindo, boquiaberta, te olhando.
Sabe, eu chamei isso de ciúme algum tempo depois, mas na hora eu não pude dizer qual era sua real intenção por detrás daquela indignação e isso foi me afligindo, uma vez que eu não sabia o quanto avançar ou voltar. Éramos nós dois de sempre num terreno novo que eu nunca tinha experimentado. E foi assim, eu travei.
E aí me entregaram. O que eu tentava tão bravamente guardar só pra mim foi dito, assim, em voz alta. E você sorriu pra mim. Pronto, me perdi mais ainda. Foi um sorriso de vitória, não é? Como quem diz "ahá, te peguei!". E você me pegou mesmo. No flagra. Caramba, te amo. E é você, só você quem vejo. Só o pensei. Continuei e, dessa vez, mais calma, só me entreguei em partes. Meu amigo. Bonito. Atraente. Engraçado. Disfarcei com outro corpo qualquer. Boa gente. E com um sorriso lindo... E eu sorria. E você sorria. E me fazia sorrir. Eu quase não ouvia suas palavras... não havia nenhuma de fato. Só seus olhos... e meus olhos... Ei, realidade!
"Só não vá ficar se achando agora..."
E você sorria...

28 de setembro de 2010

Palavras guardadas

Já é sabido
do momento dito
da palavra sincera
dos dizeres clichês
das frases esperadas.
É premeditado um brilho no olhar
um eutambém desesperado
um não saber o que fazer
na pressa do desejo,
uma espera,
a ansiedade.

Só não sabe-se
do momento não vivido
da palavra guardada
que só um vivencia
que só um pode sofrer
por saber.

E nem se pode saber
o que teria sido
se o pensamento saísse
se a situação acontecesse

Porque o amante
prefere sofrer
guardando palavras azuis
do que fazer com que os dois sofram
na aflição da não-correspondência,
que é tão negra.

Sem nem pensar no risco que há
de de repente surpreender-se.
De receber aquele eutambém,
de ver aquele brilho no olhar
De fazer da palavra dita
só o começo de tudo aquilo.

26 de setembro de 2010

Só agora

O momento, agora, só agora é o que você vai guardar. E você estar aqui, e eu acariciando seus cabelos no meu colo, o carinho é sempre mútuo e te alimenta tanto quanto a mim. Então, deixe que eu te ame, que eu te mime. Você vai fechar os olhos e sentir-se erguer e ceder ao ritmo da minha respiração, agora, só agora, porque um dia, eu sei: vou ter que deixá-lo ir.
Sabe, eu serei seu lar, se quiser. Ao menos, pelo tempo em que você ficar aqui, será eterno. Te cuidarei. Mas tudo isso sem pressa, no nosso ritmo, do jeito que tem que ser. Então, de olhos fechados, aqui deitadinho, você vai se render ao sono respirando pesado entre seus ronquinhos infantis. Sonhe com campos, e você correndo livre. Eu só posso te olhar dormir. Agora, só agora, antes de deixá-lo ir.
E vai-se essa estação e os campos dos teus sonhos tornam-se floridos. Você crescer é tão necessário quanto o ar, e comum quanto a existência. É inevitável. E você floresce junto das flores, vagaroso, calmo. É lindo.
Uma hora essa mão que te acaricia os cabelos, tornar-se-á fria. E junto dela meu corpo todo. E irá minha mente também. Sobrará só a lembrança e ainda a sensação de conforto, se tiver sorte. E em meio a ela, lembre-se de mim e agarre-se forte ao que eu disse, do quanto me importei e tudo o que eu senti. Agora, só agora, talvez você perceba que eu nunca vou deixá-lo ir. Eu não vou deixá-lo ir.


Mesmo quando eu não mais estiver
Lembre que me ouviu dizer
O quanto me importei e o que eu senti
Agora, só agora
Talvez você perceba
Que eu nunca vou deixá-lo ir!(Pitty)


PS.: Claramente baseado na música citada acima, que tem me feito bem esses dias.

19 de setembro de 2010

Gregory

Você não é tão diferente assim, sabe? Existem milhões de pessoas racionais que costumam esconder seus sentimentos. A sua diferença está em escondê-los e saber simular outros e criar situações enganando as pessoas. Mas não a mim. Comigo o seu jeito não funciona. Te conheço bem o bastante pra ver suas reais intenções, aquelas que você esconde até pra você mesmo, e analisá-lo perfeitamente. Ok, você diz que não: só mais uma prova de que sim. Você abaixa a cabeça, franze a testa, foge da conversa. Eu sei.
E por mais que você diga que não, que não sente, que não quer, eu sei que suas vontades não são diferentes das de qualquer ser humano ordinário. Você quer entender, quer amar, quer ser feliz, quer ser amado, quer estar certo, quer que dê certo, quer prazer, quer extinguir a dor... e por mais que, por vezes, você não consiga, por mais que você queira entender mais do que os outros, por mais que você saiba mais do que os outros. Por mais que você seja diferente, não tem jeito, Greg, você é humano.

18 de setembro de 2010

Amores

Ele sorria, ela sorria
Os abraços, os beijos
Os olhos nos olhos
Realmente nos olhos
Estendeu-lhe a mão

Ele via, ela via
Era real, de verdade
Tão bom, a pele
Realmente na pele
e o momento dividido

Ele sentia, ela sentia
Sendo que nada daquilo
Lhes pertencia
Realmente não pertencia
Nenhum momento

Ele fingia, ela fingia
E eles pareciam confortar-se
E confortar mais uma multidão.
Realmente interessada
E desceram do palco.

Ele era outro, ela era outra
Nem olhar, nem sorriso
Foi bom só ter sido por pouco tempo,
realmente, irrealmente,
O um que o outro fazia amar

Equalize

E eu escrevi mais uma vez sobre você pra te guardar em palavras. Só pra me assegurar de que acima de tudo o que eu diga e da direção que corram nossas vidas, entre essas páginas e sinapses, te encontrarei.

Eu vou equalizar você
numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim (Pitty)

Contigo

Eu costumava acreditar que a pessoa mais certa para eu amar era eu mesmo e mais ninguém. Eu nunca me trairia e eu nunca teria como surpreender-me nem me machucar.
Mas você veio... com seus sorrisos e seus gestos todos, veio como se fosse música e eu achava que sabia sempre qual era o acorde que vinha a seguir. Mas você mudava. Ah, que música errada eras! Eu aprendi que você é uma boa pessoa para se amar. Melhor do que eu até.E, com isso, mesmo com todas as suas reviravoltas, quem mais me surpreendeu acabou sendo eu mesma.

Gramática

Frases sem verbos. Essas minhas. Pausadamente, como se fala. Ufa! Falar. Falar e bem mais que isso: escrever; e bem mais que isso: querer dizer, dizer. Pensar e, então, comunicar e observar reações e tirar conclusões e agir e reagir. Nessa vida ativa, com pessoas prenhes de movimento, prontas para parir situações a qualquer momento. Mas pare! Ponha-se a observar só o estático que já está(é?), que não se torna coisa alguma. E em torno de convenções, passam a ser aditivas, subordinadas, absolutas, conclusivas e blá. Puro blá-blá-blá. Basta falar? Basta entender? Ser entendido. Conforta? Conforma-se? Torna-nos sujeitos cheio de adjetivos e adquiridos somente pelo verbos 'ter' e 'parecer'. Viramos todos amigos do silêncio, amigos do nada, do pouco, do raso. Não é bem justo.
Acho que as frases, todas elas existem em algum lugar e todas as combinações já existem e são estáticas. Talvez textos até, livros e livros e até Bomdias ditos sem notar. Não são minhas, nem suas. São nossas, existem. O problema é que ela vem e as destroi todas com a simplicidade - mas sem a beleza - de quem faz uma rima. Gramática.

15 de setembro de 2010

Ei, flor

Ei, flor
o teu pólen vem voando
levemente através do tempo
E dos pequenos drops de conversas
açucaradas e belas

Ei, flor
do jeito que for
pro teu jeito-flor, meu jardim-amor
E minha mente-tempo
Desde agora até eternamente.

PS.: Pro Paulinho... :D

14 de setembro de 2010

Mariana

Mari:
assim, a metade
faz todo mundo me conhecer
e traz tal proximidade
que nem sequer a falta de informações
ou a falta de tempo
poderiam contrariar.

Mas saibam vós
que a metade não é falsa
essa partezinha de mim que vem primeiro
Mostra um pouco, tanto quanto omite
o que traria o nome todo.

E eu não sei, mas acho
que enquanto nessa célula moram
simpatia, força, inteligência e medos.
No "ana" ficam ali alojadinhos,
minhas maldades, verdades e meus defeitos profundos.

E quem diz, assim, 'Mariana'
convoca todo o meu ser à tona.
Chama meus demônios mais horríveis
mais raivosos e absurdos.
E chama, também, meus amores,
chama meu sorriso e meu ver.

Quem me ama, então, há de amar "Mariana".
Há de amar o todo.
Há de amar a beleza dos defeitos em constraste
com as qualidades.
Há de amar isso.
Isso aqui que sou eu.

11 de setembro de 2010

Tal qual a vida

Sabe, hoje eu acordei cética. Sou ateia, urbana, sem magia e odeio intuições, mas não é isso que quero dizer. Quero dizer que hoje acordei cética, cética de tudo.
Hoje eu tive vontade de destruir meu quarto inteiro, de rasgar uns poemas e cortar umas relações. Hoje eu achei que a vida não valia a pena, por ser, tudo isso, só um conjunto de energia e tempo. Me achei irrelevante diante da eternidade da existência das coisas. Sabe? Quis passar o dia todo vendo televisão e me esquecer dos meus amigos, porque se tudo é tão gigantesco e exato, o que eu faço eu - minúscula e torta - nesse mundo? Hoje eu desacreditei que meus pensamentos pudessem valer alguma coisa. A vida não fez mais sentido, perdeu seu objetivo. Vou estudar, trabalhar, namorar, comer, pentear o cabelo pra, no fim, acabar morrendo de uma forma ou outra e, devido à minha minusculeza de hoje, ser feliz nesse processo todo é só um mero detalhe que poderia ser passado para trás.
E nesse clima triste foi que levantei da cama e andei até a praia e subi nas pedras e vi o mar. Lindo! De fato, está frio e eu sinto meus dedos do pé e meu nariz congelando. Estou sozinha hoje e eu poderia simplesmente me tacar no mar e deixar que todo o resto do meu corpo congele junto. Eu precisava de alguém. Estar longe de casa, sentada na pedra e com as pessoas certas sorrindo sorrisos quentes e dizendo que esse dia nunca seria esquecido. Há pessoas que eu não conheço à minha volta e todas elas estão quentinhas e felizes e isso me alegra, sabe? E se você olhar bem pro mar, para a forma como ele bate nas pedras, as desgasta e vem avançando, quase tocando meus pés. A forma como ele jorra quando bate com força. Não sei, mas tudo isso é um conjunto de energia e tempo muito bonito. E cá, no mundo, no mar, vejo agora: toda minha incerteza é tão certa.

9 de setembro de 2010

Média

Nuns quero mais do que posso
Noutros posso mais do que quero
Na média, acaba funcionando:
Tenho só o que tenho

3 de setembro de 2010

Indicações

Olha, dessa vez não trouxe texto nenhum nem indignação nenhuma. Como vim me apresentando nesses dias, decidi mostrar hoje o que eu ando lendo no quesito Blogs, ou seja, de autores que estão na mesma situação do que eu... uns mais de brincadeira, uns com milhões de leitores, mas de qualquer forma aí vão os blogs e suas devidas descrições:

Cinéfila Por Natureza
Querendo saber se aquele filme que está em cartaz ou mesmo aquele clássico vale a pena ser visto? Querendo procurar filmes novos pra ver? Ou querendo ficar ligado nas premiações musicais e cinematográficas? Indico muito esse blog! Da minha amiga natalense Kamila que é uma cinéfila por natureza.

Céu da Boca
É o tipo de blog pra se ler triste, feliz, apaixonado, ou pra se encontrar. São palavras de açúcar e singelidades cotidianas que nos causam sensações sinestésicas e, para mim, deliciosas.

Dizem as Paredes
Ligeiros continhos do cotidiano, sempre com nomes próprios e personagens bem desenhados. Uma delícia ler os contos desses dois. Indico pela praticidade das leituras e pela beleza dos personagens.

Equilíbrio Bambo
Uma certa indignação, um encontrar-se ronda os textos publicados nesse blog. Tem esse nome desequilibrado de quem está sempre no meio, no fio, na corda bamba, variando entre opiniões para lá e para cá. Me encontro muito e, por isso, recomendo.

O Resto(deveria ser) silêncio
O nepotismo(?) falou alto: o blog é do meu irmão. Melancólico, inteligente, saudosista e, até mesmo alegre, quando lhe convém. Cheio de ligações externas de músicas, filmes, séries... Leiam vocês mesmos, porque qualquer opinião minha é torta. Se me permitem a referência com o nome, é um blog pra preencer aquelas situações de silêncio, aqueles pensares não vocabulados.

Nossa Sem Hora
Blog novo, blog bom. Particularmente, conheço a autora, mas devo dizer que quem não conhece vai se ver também naqueles pequenos detalhinhos que cabem a todo mundo no dia-a-dia. "Os dias amanhecem domingos."

Tresloucado Sou
Do amigo Paulinho, poeta, apaixonado, com música e vivacidade correndo loucas no sangue. Quem lê esse blog se vê quase cantando os escritos tão lindos e as palavras tão bem colocadas dele.

29 de agosto de 2010

Mente

Eu não sei como funciona minha mente. Não sei como ela sabe mudar minhas opiniões de pedra. Não sei porque ela esconde o que realmente importa e vive de apontar dedos e criar opiniões para as coisas em volta. Não sei por que ela diz odiar o que ama e desdenhar o que mais quer pra si. Eu não sei por que aqueles post-its cerebrais nos quais deixo escrito "Não esquecer!" são sempre os primeiros a desaparecer e eu acabo esquecendo do que tinha que lembrar e, pior, acabo esquecendo que tinha que lembrar de algo. Eu não sei por que só tenho flashes da infância quando queria ter muito mais. Eu não sei de onde vêm certos cheiros que me lembram certas coisas. Às vezes eu penso que minha mente está em algum nível e por eu saber disso, sou superior a ela. E por eu saber disso sou superior a mim mesma, sabe? Eu tenho a visão do mundo externo, eu gosto de ter. E eu tento ter a visão das pessoas, mas não consigo. Eu sorrio e finjo que sei tudo o que você pensa.
Eu imagino diálogos com as pessoas, eu ensaio e ensaio e quando chego pra reproduzí-lo as palavras do meu interlocutor nunca são as mesmas do ser platônico da minha mente que eu criei pra ele. Confuso. É, está aí algo que minha mente é! Confusa! Eu não sei que nada sei. Sei que tudo sei. E sei errado. E quando eu aprendo algo, fico pensando que eu não sabia nem sequer da existência daquilo antes. Estou aprendendo que nada sei.
Ah, tem também essas paixões. Essas que vão e vem e sempre voltam as mesmas. Me apaixono por um olhar, um cheiro, uma atitude, um pensamento. Normalmente, me apaixono pela pessoa que tem vária dessas coisas apaixonantes. Me apaixono em pedacinhos. E amor, não tenho certeza do que é. Eu interpreto assim: amo uma pessoa que gosto de estar perto e em cujo funeral eu choraria. Frio isso. Não sei se é bem assim. Difícil, difícil...
Ah, quanto a desdenhar, acho que sei porque faço. É medo de amar. Medo de precisar. Acho que minha mente acha que quando eu digo que odeio acabo odiando um pouquinho mais... e, assim, aos pouquinhos, quem sabe não me livro de amar? É medo.
E eu sou medrosa mesmo... tenho medo de não saber pra onde ir, medo de precisar e não ter, medo de amar, de querer, tenho medo de não ser, medo de ser demais. Acho que é o medo que me mede e se não fosse ele, acho que eu seria uma louca extremista que faz tudo quanto passa pela mente.
Eu escrevo, eu tento, eu vivo, eu amo, eu faço, eu toco violão, desenho e ouço música, eu tomo banho, eu tenho medo, eu penso, eu sou, eu tenho, eu quero, eu sei, eu respiro, eu nado até o fundo e volto sem ar, eu corro o risco, eu compro o disco em oferta e é isso que me compõe. Sei lá.



A minha meia colorida
A minha foto já vivida
Tá na estante
A minha bandana amarrada
A minha desculpa esfarrapada
É tão falante
[...]
Mas é que eu corro o tal do risco
Eu como, eu compro disco
em oferta (Mallu Magalhães)

28 de agosto de 2010

Trecho de "Milhões"

[...]

É, poeta, então você quer escrever, não é?
Então, você vai brincar de subjetividade
E vai falar mil, mil mentiras bonitas
Que valem mais que um milhão de verdades

Sem lirismo

Sem máscara, sem palavra nem nada, sem dizer, dizendo, guardando, sentindo. Sentindo, sentindo, sentindo, sentindo... Sentido. É, procuro um desses! No dia-a-dia! A consulta do dentista e só. Só. Sou rasa, sem nada. Eu ouço, eu falo. Eu rio, eu brinco. Eu estudo matemática. E eu gosto. Eu sou gente, também. De carne e osso. Eu sou a Mari. Mari-ana Varandas Lazzari, 14 anos paulista paulistana orgulhosa. Eu não leio quando não tenho tempo e eu não sei o que é saudade. Sem lirismo, não sei. Eu moro em Santo Amaro. Eu ando na rua e me perguntam as horas. Juro! E quando perguntam indicação de rua? Nunca sei... vou andar com uma placa avisando que não me perguntem caminho. Eu gaguejo e não sei explicar.
Eu odeio o meu nariz e eu fiz mechas novas no cabelo. Eu me visto bem pra encontrar um moço e ele nem nota. Me chamam de nerd, de estranha, de engraçada, de inteligente... e eu não sou nada disso! Eu sou eu. Mari. Mari-ana. Eu odeio encarar meu nome assim, inteiro. É tão... inteiro. Tão sério! Tão pomposo! Eu sou a Mari, só Mari. Pros íntimos e pra todo mundo. Eu vou até o outro lado da cidade todo dia e eu fico vendo os indies do centro cultural e o mendigo que fala sozinho. Eu desperdiço tempo na internet. Eu assisto "House" e queria saber ser como ele, mesmo com todos os defeitos. Eu odeio votos de aniversário. Eu amo o muffin do centro cultural e eu adoro ouvir as constatações do meu pai sobre o mundo. Até quando ele viaja, eu gosto. E mesmo quando eu brigo com ele, porque o mundo é diferente do que ele é diz. Eu sei lá. O que eu, Mari, poderia saber? Eu não sei nem dar ao final, ponto. Não sei... a vida é reticente. E lá vem o lirismo de novo! Não me deixa! Mas, sei lá, vai ver a vida é meio lírica mesmo... até a consulta do dentista, quem sabe.

24 de agosto de 2010

2+2=5

"Dois e dois são cinco, passarinho."
Mas o passarinho continuava a repetir que eram quatro. E imagine que todas as pessoas no mundo repetiam "dois e dois são cinco." "é, são cinco, passarinho" e a insistência tornava-se tormento. Ele sabia que eram quatro. "Conte, conte bem, dois e dois são quatro!" Ele provava com os dedos e mil contas e relutava, mas ninguém abandonava a ideia de que isso dava, realmente, cinco. E maltratavam o pobre bichinho alado fisica e moralmente. "Que ideia insana! Se eles dizem que é cinco, então o é."
O passarinho, coitado, queria voar pra longe, pra um lugar onde ele pudesse dizer que a conta dava quinhentos e quarenta e quatro, se quisesse. Queria voar pra um lugar onde cada um defendesse a sua própria ideia, não a de um ente maior, e argumentasse a favor dela com o que pudesse. E, imagine que maravilha!, nesse lugar a razão era de quem conseguisse provar qual o verdadeiro resultado. A razão! As pessoas, e os passarinhos sonhadores, tinham razão nesse lugar! Razão de verdade! Às vezes se estava certo e às vezes errado, mas cada qual com sua ideia.
"Pense nesse lugar, passarinho... pense porque ele não existe mais. Nunca existiu."
O passarinho se debatia. Era mentira! Era mentira? "Nunca houve lugar algum, nunca houve mulher ou felicidade alguma. Nunca houve nada disso!" Não houve? "Você ama esse lugar, passarinho? Você não ama! Repita! Você não ama! Você ME ama! Você não arriscaria sua vida por esse lugar, não é passarinho?" Eles o fizeram acreditar.
"E dois mais dois quanto é, pássaro? Quanto é?"
"Cinco, se você diz assim."

16 de agosto de 2010

One day, one room

Segunda-feira, dezesseis de agosto de dois mil e dez, às catorze horas, catorze minutos e 8 segundos. O lápis está no papel.
Está frio em São Paulo e isso, de alguma forma, me esquenta; vê-la, assim, em tons marrons e peles claras e narizes vermelhos e golas enfiadas até as orelhas. Mas o sol brilha e, debaixo dele, eu até me livraria de alguns casacos. Não agora. Estou na sombra, no banco da esquerda, mera espectadora.
E passam carros, passam multidões e vidas. Passa o frio. Sentam-se pessoas ao meio. Ao passo que passam, mais pessoas. Em rodas diferentes, conversas diferentes. Umas sorriem, umas riem, umas se concentram. E vão ficando mais quentes.
Seus óculos e seus cachecois. Desuniformemente, seus tênis e suas rugas. Vai esquentando a vida. O moço joga xadrez ao lado, o outro estuda direito.
Passa o homem da bicicleta, passa pensando. Ele gosta de: escrever seu nome em vidros embaçados. Ele não gosta de: gente espirrando. Ele passa e pisca pra mocinha. Aquela ali de saia azul. Ela gosta de: lápis Bic. Ela não gosta de: usar meias. Mas ela usa. Está frio, afinal. E sua mãe costumava dizer pra não andar com o pé desagasalhado. Pobre mãezinha essa, morreu de forma tão dolorida, mal sabia que o pé estar quentinho era só capricho... mas esquecêi-la: ela não existe.
Continuo espectadora. A roda de pessoas levanta e fica só a roda de malas. Elas não existem mais. Existem só malas no chão sem dono. É como aquele meu tio que não existe. Mora lá na África o homem que nem o nome sei. Sangue do meu sangue. Coexistiríamos, mas ele, de fato, não existe.
Existe a moça de saia azul. Existe aquela vindo ali devagarinho (Que gosta de: remédio. E não gosta de: carros antigos.) Existe a roda de pessoas ainda sentadas. O moço da bicicleta, onde estará? Não existe mais... mas eu existo.
É segunda-feira, dezesseis de agosto de dois mil e dez, às catorze horas, vinte e oito minutos e trinta e sete segundos. Uma mosca pousa ao meu lado. Ela existe.

PS.: baseado em Amélie, obviamente, em uma tarde real e em um episódio de House ("One day, one room").

12 de agosto de 2010

Vidro

[...]É como se a sua fragilidade fosse tanta que são necessários meus elogios, meus carinhos, senão você não sobrevive. Senão você cai em estilhaços, e, no final, com as mãos sangrentas, sempre eu que tenho de recolher teus pedaços.

8 de agosto de 2010

Minha poesia

Ah, minha poesia, és
a poesia errada
numa estrada lotada
de erros a se cometer

És da rua, vulgar, essa poesia
Sem norma, sem nada
Sem nem sequer palavra
Pra indignar ou não

És a poesia disforme
Escrita na folha sem linhas
Poesia sem público nem crítica
És só esse ser visível

Desrimada, ó poesia
Me descreva, me perturbe
Dissimulada e vazia
És só som e fúria

Sem sentido nenhum
és só minha alma, poesia
E minha alma é tal qual suja
Profana e linda

Mas podes ser bela, doce poesia
Mesmo assim tão torta
Pois é fácil ganhar num jogo
se ignoras suas regras

3 de agosto de 2010

Ritual

Acho que ela me ama. E confesso que me divirto à beça com isso. Provoco, ignoro, fico tocando-a e acho que ela - no fim - sempre acaba me amando de um jeito ou de outro. É... acho que ela me ama mesmo. Eu acho e ela sabe que me ama. É por isso que provoco, ignoro e a toco: porque seja lá o que eu fizer, ela sempre vem e me ama mais e mais.
E ela é tão linda quando me olha com os olhinhos brilhantes e imagina cenas protagonizadas por mim em sua cabecinha apaixonada. Tão linda! Me divirto com esses olhares. Dou-lhe ainda mais profundos, mais desafiadores e os seus permanecem lá, sempre brilhantes e cada vez mais interessados. Me divirto. Ela sorri e sabe que eu a maltrato assim. Cada vez que lhe lanço um questionamento, com a face confiante, seu corpinho clama mais pelo meu. Por dentro, rio mais. Deixo as provocações de lado e parto pra outra técnica.
Ela vem falar comigo, não dou atenção. Começa a sofrer, a menina. Apela com decotes e carinhos, à maneira dela. Ah, e como me divirto, enquanto ela tenta a todo custo arrancar meus olhos para si! Fica quase pornográfica, lá toda estirada, com suas poses. E quando desiste da apelação sexual, vem amigar-se, vem conversar. Eu sempre rindo. E ela sabe.
Chega então a parte final do nosso ritual. Aproveito suas carícias para tocá-la, sorrir-lhe, elogiá-la e, dessa vez, é ela quem se enche de confiança e eu viro mero espectador no show que a mente dela proporciona. Gosto de tocá-la na cintura, nos cabelos, nas mãos... e gosto de como ela amolece toda e se entrega ao meu mínimo toque. É a fase mais romântica: ela bem, eu bem também. Não rio, sorrio. E ela sabe. É a fase também em que ela fica mais bela: sem tristeza, sem pornografia. Fica bela. Só bela. Só ela. Mas essa é também a minha fase de sofrer: nos seguramos, resistimos à tentação e logo esfriamos.
Volta o processo pro começo. Tudo igual. Volto a provocá-la. Não ousamos consumar, não ousamos revelar, não ousamos nem sequer verbalizar... isso. Porque é bom.
É bom e pra nós dois funcionou até agora. Acho que existe uma certa magia nesse nosso ritual, que vai e volta e nunca tem um fim exato. Eu acho - e ela sabe - que ela me ama. É... eu sei - ela sabe melhor ainda - que eu a amo também.

30 de julho de 2010

Metamorfose ambulante

A cada expandidinha de pensamento, volto pra rever tudo aquilo que já era pronto, aceito e tomado como sólido. Percebo como algumas coisas mudam bruscamente. Outras permanecem iguais e enquanto umas deixam de ser interessante outras recebem um interesse novo, pronto pra ser explorado.
Por isso é que quando conheço uma música, uma pessoa, uma situação, um filme, um personagem ou um modo de pensar, eu me atenho bem à minha opinião sobre aquilo: só para vê-la, deliciosamente, mudar ao passar da vida.

29 de julho de 2010

Uma opinião

A vida vem cheirando a realidade. Assim, meio cheiro de rua, cheiro de gente, cheiro de riso, cheiro de cor e de televisão. Isso é verdade. É verdade... pra alguém. Me pus a escrever e prometi que dessa vez não mentiria, mas, olhe só, já comecei com meus enganos. A verdade é que a vida não é cheiro nenhum. A vida não é cor e nem palavra nem desenho. Não é assim a vida.
Seria fácil, também, dizer que a vida é gente, jogar-lhe um V maiúsculo no começo e ditar-lhe frases e marcações de cena, tal qual os gregos. Seria fácil, sim. Poderíamos, assim, perguntá-la "qual seu objetivo? de onde vens, Vida? pra quê serves?" e esperar que ela lhe respondesse, assim, em português claro e respostas objetivas. Engano. A vida não é assim.
Ou dizer que a vida, na verdade, não é nada. Não tem sentido nem objetivo. Só aconteceu de existir. Animais se reproduzindo, energia, energia e matéria. Conflitos e conflitos. E som e fúria, significando nada. A vida não é bem assim.
Dentre outras opiniões, só sei do que a vida não é. A vida não é nada disso. E se não é nada disso, não sei o que é. Sabê-la pode servir de alimento pra curiosidade ou talvez de fonte para se descobrir o jeito certo de encará-la. Tantas opiniões defendidas rondam minha cabeça confusa, mas eu vou só assim, procurando-na, descobrindo-na. Em cada pessoa, mais um pedacinho de sabê-la toda. A cada madrugada. Um dia eu vou saber se esse cheiro de rua, de gente, de riso, cheiro de cor e de televisão é vida ou se sou eu que vejo assim. Eu, não, né? Deve ser verdade... pra alguém.

15 de julho de 2010

Saiam dos seus buracos

Não importa o quanto eu repita e repita, a lógica parece o caminho mais difícil a se traçar. Pelo menos é o que eles aparentam. Pegam seus créditos, culpam os sentimentos, a intuição, culpam energias que nem sequer fazem sentido, culpam Deus. Mas deus só culpam se a culpa for positiva. Porque médico nenhum cura a doença que deus te deu, de forma nenhuma. Pelo contrário. É sempre deus quem cura a doença dessa humanidade. Eu preferia não ir por aí, porque sei que te machuca, mas, você sabe, isso tudo o que você chama de luz, eu chamo de manipulação. E eu tento te ajudar. Não é arrogância a minha quando eu grito minhas verdades na sua cara. Já parou pra pensar que você grita as suas também? E ainda mais forte. Você é uma sociedade inteira.
Alienação é coisa de gente que já é fraca da cabeça, você repete todo dia durante o horário nobre. Todo dia. Eu não digo por insistência, não. Eu digo porque eu acredito. Eu acredito que sei algo que você não sabe. Tudo bem, eu sou arrogante - ótimo, tchau - mas talvez em alguns aspectos, só alguns, por alguns momentos, só alguns, eu esteja certa. De repente, as conversas podem não terminar em quem tem mais poder, mas em quem tem mais razão, como o que você sempre diz prezar.
Te usei de exemplo, te expus - me desculpe por isso. Você é só a personificação do que é um mundo inteiro. Talvez porque meu mundo seja aquele que você construiu, mas não é isso que vem ao caso agora. O que vem ao caso é que não adianta você (e por você, quero dizer todos) querer implantar os seus próprios valores no mundo e nem achar que você está certa em todos eles. Em alguns aspectos, só alguns, por alguns momentos, só alguns, você talvez esteja certa. Eu também.
Mas você sabe como é meu orgulho. Eu grito, eu faço barreiras contra as suas opiniões, mas eu paro. Eu paro e penso "Estarão certas?" e eu faço um julgamento sobre cada uma delas, até as que, a princípio, soaram extremamente absurdas. E é nesse julgamento que mora nossa diferença. É no meu parar e pensar que ela mora. Quantas vezes eu já não voltei a você, derrubando todas aquelas muralhas de orgulho, e disse que você estava certa?
Não estou sempre certa. Gostaria de estar, gostaria de ter certeza, mas gostaria mais ainda de poder descobrir cada uma dessas certezas por mim mesma, pelo ato maravilhoso que é o pensar. E não o duplipensar, não o católicopensar, não o demopensar, mas o egopensar. Sozinha. Por descobrir o que eu, indivíduo, penso.
Eu faço milhões de coisas erradas, mas essa, talvez só essa, por agora, talvez só por agora, esteja certa. Não quero que pensem como eu, mas que pensem. Pensem. Por mais arrogante que eu pareça agora.

"People, get out of your holes!" House

PS.: Centésimo post do blog \o/
PS2.: O que começou querendo ser sobre religião, terminou sendo sobre o mundo inteiro. Sou refém dessas palavras.

12 de julho de 2010

Memórias

Tenho algumas memórias de infância. Algumas, já não tenho mais. Algumas delas foram ficando pelo caminho à medida que o futuro se tornava presente e que outras coisas tomavam relevância maior. Algumas andam mais frescas na mente, como a do que eu comi ontem ou a que horas é a consulta no dentista, mas com o tempo vão-se sem aviso, levadas para algum lugar.
Lugar esse que ninguém sabe qual. Que ninguém sabe se é real ou se é imaginário. Talvez um grande armário com centenas de gavetas, o qual vamos alojando e compartimentando cada uma de nossas lembranças, por data. Ou algo mais caótico como uma grande sala com milhões de memórias jogadas ao léu.
Memória não serve de nada. Memória não alimenta, não faz companhia, memória não fala. Mas memória é feita para ser lembrada. Memória ensina, memória mata (mesmo que de forma triste, irreal) a saudade. Memória é conforto. Memória é passado e memória é futuro. Memória é querer estar onde se está, pelo caminho de chegar até lá, e querer seguir em frente, pelo desejo de lembrar. Memória é isso. Lembrar, relembrar. E relembrar é viver.

PS.: Fiz pro colégio esse texto, então, enfim... tá aí :)

8 de julho de 2010

Pseudônimo

Eu vou escrever um poema
de palavrinhas brincantes,
com expressões nunca ouvidas
da minha caixinha de coisas-não-ditas.
Inerte, acabarei dizendo-te tudo.
Nervosamente, gritando
meu estoque de incoerências
que, desconexas, contam verdades.
Vou contar nas entrelinhas
do abismo existente entre
o que eu sou, o que eu acho que sou
e o que eu pretendo ser.
E ainda te incluirei no meu discurso:
Vou dizer tudo o que eu odeio em você
e tudo o que me faz te amar.
E como eu amo! - direi no poema.
Mas aí no finalzinho
quando for hora de assinar
assino, assim, com outro nome
que você nunca tenha ouvido falar;
Ou, ainda, chego no final
e termino com boas risadas,
falo que era tudo mentira
ou culpo um personagem.
E minha negação só vai confirmar
Que esse poema que pretendo fazer
É inteirinho sobre mim
e é inteirinho pra você

Imagem

Não sei se foi só pelo efeito da neblina que nos envolvia e seguia vagarosamente por mar, mas quando te vi naquela noite, vi nosso futuro inteirinho em preto-e-branco indo, assim, na mesma direção da neblina, deitado ali entre as pedras sobre as quais você estava. Seu perfil contra a luz do luar, o cabelo bagunçado. Pude ver ainda o teu sorriso refletir a luz que vinha do céu e batia na água, no teu rosto e, por fim, no meu olhar. Todos brilhavam harmonicamente e nem se sabia mais quem refletia quem. Sabia-se apenas que ali acontecia um encontro com o qual eu nunca nem sequer havia sonhado, pois estávamos eu, tu e nosso destino, como sempre, mas desta vez ele seguia pro mar e, sendo assim, eu não podia ver seu final.

4 de julho de 2010

Aspirações

Eu vou sair mais de casa
Eu vou arranjar um emprego
Eu vou ler os livros
que estão para ser lidos

Eu vou aprender um instrumento
Eu vou arranjar um namorado
Eu vou conhecer mais gente
E deixá-las me conhecer mais

Eu vou rever alguns filmes
Eu vou dedicar uma música a alguém
Eu vou dizer mais euteamos
E dessa vez vão ser verdadeiros

Eu vou olhar pra frente
Eu vou sorrir pra todo mundo
Eu vou comprar roupas novas
E continuar usando as velhas

Eu vou escrever poemas
Eu vou assistir peças
Eu vou rever fotos antigas
E aspirar sua nostalgia

Eu vou ver de outro ponto de vista
Eu vou jogar no lixo meus preconceitos
Vou me deixar apaixonar
E deixar que se apaixonem por mim

Eu vou ser carinhosa
Eu vou dizer o que realmente penso
Eu vou sorrir à toa
E chorar à toa também

Eu vou ser normal
Eu vou ser feliz
Eu vou ser eu
Por mais anormal que seja

14 de junho de 2010

Gritos impensados

Eu quero
Tudo o que eu quero na vida
por cinco minutos
Dez, quero
Quero tudo o que eu condenei
E que agora (minutos mais tarde)
já é bobagem.

Eu grito
Grito pelo seu grito
Meu grito arrogante
Nem penso
mas grito pelo o que eu acho
Queria eu uma 'eu' pra gritar pra mim
Todos os seus achares

Mas penso
De cada grito de pensamento
Um pensamento impensado
Eu grito
Penso - então - pros outros
ouvintes das minhas contradições
Que chata sou eu!

6 de junho de 2010

Sobre escrever

Fiquei sozinha esses dias e não escrevi. Desse lápis e papel que vos falam agora não saiu palavra. Do pensamento, alguns feixes de ideia que nem se podem chamar textos.
Acho que escrevo quando me encontro. E acho que me encontro sempre nos outros.

PS.: Mini-texto nem é texto, haha :)

2 de junho de 2010

Dessa vez

Dessa vez, eu cederei se ouvir tuas palavras. Dessa vez, eu não quero presentes e nem cenas de novela. Nem quero livros sobre nós dois. Não quero luzes brilhantes, focos e nem histórias mirabolantes. Dessa vez, eu me contento com o clichê que é ser uma pessoa. E não quero script. Não quero saber-te. Quero o mistério que é o tempo presente, que é passar cada minuto sem poder prever o próximo. Dessa vez, quero que cheire a realidade porque talvez dessa vez - pela primeira vez - seja real.


Maybe this time, I'll be lucky
Maybe this time, he'll stay
Maybe this time, for the first time
Love won't hurry away (Liza Minelli)

30 de maio de 2010

Personalidade

[...]E aí eu fui te condenar e gritar na sua cara todas as coisas que você não era, mas estava fingindo ser e não pude. Tentei em vão te dizer que eu amo aquele você de verdade, mas não pude. Eu quis achar aquela nossa amizade em algum lugar, mas eu já não sabia como. Eu não sabia mais quem era você. E, portanto, não sabia mais quem era eu.

PS.: Só desabafinho pra desestressar. :)

26 de maio de 2010

Entrelados

Ela arrumava o cabelo, a roupa e o sorriso. O lado de fora tão seguro e o de dentro, apreensivo. Os olhares todos no alvo cujos olhares, dispersos, nem viam. Aquela mania de fazer caretas e bagunçar o cabelo se expressava nele. E ela quase podia sentí-lo mais perto a cada risada e a cada momento. E isso fazia seu coração bater. O lado de dentro, então, mais apreensivo ainda. Quisera virar-se do avesso e deixá-lo ver inteirinha por dentro: complexa, linda e apreensiva. Tornar-se-ia vulnerável. Tornar-se-ia inocente e a decisão seria só dele. Quisera ver o lado de dentro dele também. Talvez naqueles olhos ela pudesse. Mas, ainda assim, quisera que ele não olhasse pra ela. Não agora. Num movimento gracioso ele sorriu. Ela sorriu junto. Ele, então, virou-se para o lado e a olhou diretamente nos olhos. Ela se assustou, guardou o sorriso e trancou-o bem dentro, quietinho, apreensivo. Ele se levantou e caminhou até ela. Ela, trancada, fingiu escrever qualquer coisa num papel qualquer. Foi tomada por uma sombra: ele já estava bem perto dela, de pé, com aquele sorriso seu conhecido e uma pitada de curiosidade nos olhos. E uma frase que ele disse (quando ela pôde finalmente conhecer sua voz) foi o bastante para ela se abster e deixar o lado de dentro (aquele apreensivo e apaixonado) gritar.

"Te vi me olhando."
"Me vi, te olhando."

24 de maio de 2010

Sobre alguém qualquer (e todo mundo)

De olhos semicerrados ela anda vagarosamente. Nos pés a impensada inércia e, na cabeça, branco. Não precisa de mais nada que não aquele momento. Ela não espera, não quer e nem corre atrás. Os desejos acostumaram-se a viver ali sem externar-se e quase não existem mais. Os sorrisos todos foram guardados em algum lugar, mas ela já não pode mais achá-los. E os amigos, por fim, deixaram de ser amigos. Ela parou de amá-los. Parou porque sentimento, agora, é algo raro pra ela. No máximo alguma indiferença ou frustração, mas não amor, não persistência, não alegria nem coragem. Os dias que acabam pela metade vão-se desenrolando sem motivo nenhum.
Ela levanta o olhar desdenhoso para a vida pensando em qual seria o melhor jeito de sair daquele lugar. A cidade parece corresponder à sua indiferença com mais indiferença ainda. As pessoas passam sem nem olhá-la. Ela quer odiá-las. Não consegue. E segue a andar.
E em pleno viaduto cinza, nesse passo pesado de angústia, na embriaguez do silêncio da sua mente é que volta a sentir. Mas, então, sente-se triste. Sente-se dor. Sente-se desilusão e decide voar. Voar pra bem longe, pra onde ninguém pode achá-la. No vôo que parece perdurar horas, só consegue pensar num lugar pra onde quer ir e quando o vôo se acaba ela parece estar bem onde queria. Ela morre na contramão atrapalhando o tráfego.


Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar nem pra rir
[...]
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento
Encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada...

18 de maio de 2010

Mundo

Num desânimo latente caminho pelas ruas procurando, em vão, me encontrar. Em cada beco, em cada porta, vou ver se é lá meu lugar. Minha Pasárgada está por aí. Vem da certeza, do olho que brilha, de um resto de esperança num sufocante mar de desapego. Mas a cada esquina virada, vai-se e, com o tempo, eu quase posso acreditar que ela não existe. Mas não ainda. Aos poucos vou assim, me desgrudando, na tentativa de achar o que eu sou fora do contexto-mundo. Que bobagem. Eu sou do mundo. Sou mundo puro.

Poeta III

-Digo que é o poeta o homem mais poderoso do mundo.
-Digo que é um rei, um milionário.
-Poeta transforma o que quiser no que quiser.
-Só na imaginação dele próprio.
-E na dos outros. E há algo além disso?
-Há. A realidade. O homem rico pode comprar, ter, ser o que quiser, pode fingir, amar, pode querer e desquerer, mandar e desmandar, adquirir, comer, usufruir, encontrar o que quiser... O que pode o poeta?
-O poeta pode se encontrar.

17 de maio de 2010

Metáforas rosas

As rosas da minha rua têm crescido tão belas - notei. Tão fora de estação, na cidade tão cinza e grande, de paredes brutas. E uma jovem paulistana de apartamento estranha contato tão extremo com essas pétalas delicadas que insistem em cair pelo jardim. Essas rosas ousadas!
Queria qualquer dia passear só pra vê-las, mas tudo anda num ritmo alucinado de quem vive pra amanhã. E as rosas continuam lá me esperando. E vão despetalando-se enquanto tornam-se só mais uma cena de cotidiano.
Estou dizendo isso tudo porque hoje tomei uma iniciativa. Hoje peguei uma das rosas do jardim e senti alguma coisa diferente. Senti como se nada no mundo pudesse me trazer a essência de volta como uma rosa faz. Senti todo o romance de todos os amantes que presentearam os seus com uma rosa e senti naquele vermelho toda a paixão do meu corpo esvair-se e a rosa tornar-se mais vermelha ainda. Vermelho-viva. Passei a amar a rosa. Guardei a rosa. E a rosa me guarda também. Porque entre toda aquela paixão ardente, acho que deixei um pedacinho de mim com ela.


Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam (Cartola)

8 de maio de 2010

Alma de poeta

Esconde-te, alma de poeta
Mesmo que sem notar
Nas curvas que carrega a vida
de infindas possibilidades

Perdoa-me, alma de poeta
Por ter jogado fora não o tempo
Mas todas as desventuras
Que moraram na chance do haver.

Hasteia, alma de poeta
A flâmula tão alva
de limpa sinceridade
trazendo sempre uma nova vez.

Semeia, alma de poeta
Mas só se trouxeres na semeadura
A intenção da colheita
Não semeia-me por fazer.

Poeta-me, alma de poeta
Poeta tudo o que quiser
Que minha mente tua é
Prenhe de prontidão

E ama-me, alma de poeta
Ama-me com toda a alma
E traz me entre suas entrelinhas
O que sentes de verdade

5 de maio de 2010

Todos os motivos VI

E o perigo só aumenta.
Você anda lendo meus olhares
e minhas páginas todas.
Num movimento inerte sei
com toda a carga que tanto condeno
impossível.
Conforta só ser o que se é
Mas não é o bastante
A vida é cheia de venturas
e aventuras.
E a gente nem nota.
É costume.
Desde sempre foi assim.
Imagine viver com os pés no ar.
Impossível.
Só quem ama.

4 de maio de 2010

Psico delicadamente (Todos os motivos V)

-Eu ando segurando minhas respostas perto de você...
-Porquê?
-Dá medo de as palavras me denunciarem, sabe? Às vezes elas saem da alma e vão voando, sozinhas pros seus ouvidos.
-Eu gosto delas aqui.
-Eu até gostaria delas aí, mas sabe como é, né?
-Não sei. Como é?
-Se elas me denunciarem, eu posso dizer coisas que te assustariam. E muito.
-Duvido. Adoro te ouvir falar e falar, cada vez se afundando mais em besteiras e nas suas filosofias bobas.
-Mas com você é diferente... eu não só falo. Eu falo mais do que deveria. Falo mais do que eu sei que saberia falar. Falo mais do que sinto, até. Seus olhos... calma, não sei se são os olhos, a voz, seu jeito de mexer no cabelo... não sei, não, mas alguma coisa em você é como uma chave que me abre inteira e me faz ficar assim, verborrágica.
-Você não fala mais do que sente.
-Falo, sim. Até solto uns 'eu te amo' no meio dos discursos.
-Você me ama.
-Minha mente é estranha. As coisas ficam rodando aqui psicodelicamente...
-Conheço tua mente. Tuas palavras denunciam. Te amo também.

"Não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer" (Rodrigo Amarante)

3 de maio de 2010

Amado

Que insano que soa lhe fazer esse pedido; mas volte. Quero que volte. Chega de choro, da falta do seu colo, chega de indignação e culpa. Volte porque tudo por aqui clama sua volta.
Os fios de cabelo que encontro pela casa lhe(me) dão esses sinais. Eles pedem que volte. Os seus livros viraram só-papel e os cômodos todos parecem muito grandiosos pra mim. O cachorro ainda late toda vez que ouve uma buzina e espera com a coleira na boca por você. O vizinho que só implicava contigo não vem mais bater à nossa porta, não tem mais do que reclamar, e as cordas da guitarra que você comprou com tanto carinho estão cada vez mais enferrujadas e desafinadas. Às vezes ainda ouço um dedilhado delicado da nossa música, e corro pra sala na esperança de te ver. Doi ver a guitarra. Doi mais ainda não ver nada. Doi não ter com quem gritar, com quem brigar por você ter ido. Doi não ter nada que machuque. Doi ser isso. Doi o nada que é estar sem você.
Doi ouvir suas risadas ainda ecoando em cada canto desse apartamento. Suas fotos doem. Mas doem de uma forma boa. Doem de saudade. Saudade é bom sentimento. Falta, não. Falta não é saudade. Saudade é lembrar de momentos bons, de coisas que já passaram, mas que foram tão boas que valeria a pena viver de novo. Falta é pior. Falta é saber que agora eu poderia estar com você. Falta não é sentir que se fez o que se pôde pra ser feliz, falta é desperdiçar momentos nossos, sozinha.
E envolta em toda essa angústia é que te peço que volte, ou me busque e eu irei com você. Mesmo que nos sonhos. Mesmo que você não exista mais. Volte pra me buscar.

PS.: Bruce está pedindo que eu largue o papel e leve-o pra passear. Não se esqueça que te amo. Beijos.

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"Estou entregue a ponto de estar sempre só,
esperando um sim ou nunca mais." (Vanessa da Mata)

Hipoteticamente falando

-Dá pra acreditar? Quase sete bilhões de pessoas no mundo e justo a gente foi se encontrar.
-Já pensei nisso... Mas, sei lá, vai ver era pra ser mesmo...
-E a gente podia nunca ter se conhecido mesmo morando perto e tudo o mais.
-É, ou se conhecido, mas por algum motivo a gente podia se odiar.
-Nunca te odiaria.
-Diz a 'você da realidade', que é só mais uma das hipóteses do que poderia ter acontecido.
-Não, a realidade é uma hipótese diferente... ela se concretizou.
-Mas não deixa de ser uma hipótese... se outra tivesse se concretizado você nunca saberia.
-É, né? Vai que essa é a outra.
-Não, essa é a real.
-Ou não. A gente pode ser só o 'menu' de hipóteses e nem fomos escolhidos...
-Isso não tem sentido.
-Muda alguma coisa?
-Na verdade, não, mas não tem sentido...
-Você e sua mania de achar respostas...
-Você e sua mania de achar perguntas...



Entre tantos outros
Entre tantos séculos
Que sorte a nossa, hein?
Entre tantas paixões
Esse encontro, nós dois
Esse amor (Vanessa da Mata)

30 de abril de 2010

Lembrança

Nas penumbras que a dor provoca. Vivaz bate o coração aproveitando cada um dos milésimos de segundos de sua tão finda existência. Os olhos já semicerrados numa tentativa inútil de guardar pra sempre aqueles rostos. Mal sabe que tudo se apaga. "Melhor que não chorem. Melhor que me esqueçam." pensa, mais altruísta do que nunca, "Porque logo não haverá 'eu' pra me importar.", mas logo volta atrás. Seria tão bom se não tivesse sido tudo em vão. Pede, num sussurro, que não a esqueçam, o que é respondido com alguns soluços afirmativos.
Olha à sua volta e nota que o quarto está ainda mais cheio. A vista está borrada, mas pode ver quem são. Sorri quase estaticamente e ainda ouve um "Boa noite, filha." seguido de um beijo na testa. Mas de alguma forma ela sabe que não vai dormir. Ela sabe qual é o destino que lhe vem a seguir. Mas uma dúvida paira na cabecinha sagaz. "Pra onde vou?". Num desespero incomum, pergunta "Pai, pai! Pra onde vou?" Ele pede pra não se preocupar, mas isso parece não deter o entusiasmo da menina. O pai soluça. A mãe soluça também. E a chuva que escorre na janela parece chorar junto com eles. O corpinho outrora entusiasmado deita a cabeça no travesseiro e descansa todos os músculos. Sorri.
O corpo totalmente dopado de morfina, não doi. O que doi é um aperto fundo. Montanha-russa! Ela nunca andou de montanha-russa. É a montanha-russa que aperta. Junto com nunca-ter-beijado-na-boca e não ter tempo de presenciar o aniversário de sua melhor amiga. Todos apertam fundo em algum lugar do peito.
Continua sorrindo, apesar da aflição. Sente, então, todos os seus pensamentos voarem e sobrar só aquele sorriso. Todos os seus segredos morrem com ela. E, de repente, da menina inteligente, que odiava geografia e tomate, nunca tinha andado de montanha-russa e nem beijado na boca...Daquela menina única e cheia de detalhes pessoais, sobra só a lembrança.

29 de abril de 2010

Só vou gostar de quem gosta de mim

-Ôu, sabe aquela música "e pra começaaar eu só vou gostar de quem gosta de miim, só voou gostar..."
-hahaha Você canta muito.
-haha Idiota... já ouviu?
-Já. Que que tem?
-Vou fazer o que a música diz...
-O quê ela diz?
-Ué, acabei de cantar... "só voou gostar de quem gosta de miiiiiim..."
-Só vai gostar de quem gosta de ti?
-Isso!
-Durante quantos dias?
-Hã?
-Você é a rainha dos amores não-correspondidos.
-Nossa, valeu, hein.
-haha Tô brincando.
-Bom mesmo, haha.
-Mas, ei, essa regra não dá muito certo...
-Porquê?
-Ué, se todas as pessoas forem gostar de quem gosta delas, ninguém vai gostar de ninguém.
-Por que não?
-Porque alguém precisa gostar primeiro, sei lá... e, já que não pode gostar de quem não gosta de você, ninguém vai 'gostar primeiro'.
-A menos que eles gostem no exato mesmo momento.
-Não, tem que gostar de quem já gosta de você.
-É, então não rola mesmo.
-hahahahaha
-hahahaha
-Que viagem.
-E gostar também é um termo muito relativo, sabe?
-hahahaha
-Que foi?
-Lá vem mais viagem...
-Tá bom... cheguei dessa história... vou gostar de todo mundo de novo agora.
-hahaha!

28 de abril de 2010

Lembra?

Você me olha, assim; me encara não exatamente bruto.
Desvia, me perco. Vou guiando-me pelo teu olhar.
E ele guarda um monte de coisa...
Debaixo desse mel bonito e do castanho quase-claro-que-eu-adoro
Dos caracois dos seus cabelos
Que guardam mil surpresas pra mim...
Eu posso ver, ali no fundo... lembra de tudo o que a gente viveu?
Antes de chegar nisso que é... que é não precisar dizer o que se pensa.
E os desafios. Tua mente acende a minha. Vice-versa?
Mas lembra de antes, como era.
Lembra?
O dia que eu te conheci, lembra?
O dia que eu me apaixonei, lembra?
O passeio de bicicleta, lembra?
Linguagem de surdo-mudo, lembra?
Quanta bobagem!
Eu já fui sua namorada - que hilário! - e você já me deu uma flor.
Ah, a flor!
Eu me lembro. E você?
A flor!
Você me deu e a gente rolou de rir, lembra?
É ela que vejo!
É ela quem se esconde nesses olhos que me guiam.
Vermelho-forte, mas já insípida, a flor
Que antigo!
Que romântico!
Quanta bobagem!...

-"Você perdeu o foco."
-"Você fez de propósito, a desviada."
-"Fiz."

Trecho de "Tchau"

E de repente a casa soa tão enorme e vazia...

26 de abril de 2010

Seja

Ei, pára com isso! Presta atenção no que eu digo! É isso que você quer? Quer dizer... Eu não sei mais quem é você. Não sei mais o que é gente debaixo de todas essas máscaras que você foi pondo pra si mesma, de cada um desses disfarces com os quais você se escondia, se protegia.
Ei, dê a cara a tapa. Se mostre, seja, imponha, obrigue-me a gostar de ti, do seu verdadeiro eu. Não se molde em cima do que eu digo, do que eu sou. Se molde em cima de você mesma. Me dê o ultimato! E que seja o último dos ultimatos. Não me dê chance.
Chega dessas frases, que você pensa tão espontâneas, mas que se repetem a cada vez que fala. Escreva, invente, seja. Faça o que quiser. Só o que quiser. E não me deixe ser tão imperativa com você.
Sabe que já pensei que, talvez, de tanto que você cria faces pra si, essas faces sejam você. Talvez você seja a moça-que-inventa-faces e essa seja sua melhor definição. Ou talvez isso tudo não passe de uma idiotice sem tamanho e não dá pra definir alguém colocando algumas palavras juntas. Talvez seres humanos - e qualquer tipo de coisa existente - sejam assim, de várias faces, uma pra cada situação, pra cada tempo, pra cada ponto de vista.
Mas seja como for, seja. Só seja. Seja você, nem que com essas faces. Tenha tuas faces, mas que tuas faces espelhem sempre pra dentro e te digam - e me digam - que é você e não que sejam espelhos narcisistas que me confortam a cada vez que te vejo. Seja você.

Ou simplesmente ignore tudo o que eu disse, porque, afinal eu sou só a Srta. eu-ponho-palavras-juntas-pra-definir-pessoas.


Tira a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser (Pitty)

25 de abril de 2010

Homens

-Aff... os homens são todos iguais.
-Então por que cês escolhem tanto? dã
-É que uns são mais iguais que os outros.

Envelhecer

De repente todos aqueles discos tornaram-se pomposos demais e as páginas amarelas dos meus livros preferidos ficaram cada vez mais amarelas. O que era estático passou a ser contínuo e o passado correu cada vez mais rápido, mais perto.
Amei todos os velhos amores e vi todas as cenas repetirem-se fielmente diante dos meus olhos. As flores e os sorrisos que outrora pareceram num tom de sépia inalcançável, agora tinham cor de realidade. Todas as histórias que soavam esquecidas, reinventadas e recontadas (com re-sorrisos) agora eu sentia na pele. Sentia na pele aquele gosto, aquele toque de filme em preto-e-branco, de memórias de família, de copa-de-setenta, de tudo o que eu não vivi, mas que eles viveram por mim.


"[...]Apesar de termos feito
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais." (Belchior)

22 de abril de 2010

Parabéns!

Mais um dia se passou e você está um dia mais velho. Você está um dia mais gordo e suas contas estão um dia mais atrasadas.
Você não está um dia mais burro, no entanto, não está um dia mais inteligente. Você está um dia mais sedentário e um dia mais desocupado. Você está um dia mais vulgar. Você está um dia mais egoísta e mais pobre. Você está um dia mais manipulado.
Você está um dia mais próximo da morte. Um dia mais consumista, um dia mais machista, mais idiota. Você está um dia mais moralista. Você tem um dia a mais desperdiçado e você tem um dia a menos pra viver.
Que perspectiva de vida brilhante!


PS.: Desculpa a raiva, haha

21 de abril de 2010

A caixa

Uma caixa de papelão deixada no último canto do sótão à mercê dos estragos que o tempo (e a umidade do lugar) pode fazer. Deixada ao léu, entregue às mãos do esquecimento.
Entre mudanças de casa e vida, a caixa permanece e seus objetos tornam-se mais puidos a cada vez que ela se torna sem sentido.
Já não se sabe mais pra quê guardá-la e seu interior, a esse momento, já é irreconhecível. Não se vê mais nela aquilo que existiu. Nesse ínterim, entre o tempo que fora presente e o tempo em que é nada, a caixa andou com aqueles que foram-na construindo, pouco a pouco guardando suas mais belas recordações.
A caixa, já sem objetivo, sem aparência, sem conteúdo, vive só para aqueles que vêm nela algum significado. A caixa depende da mente, depende da lembrança.
Mas as pessoas envelhecem. E a caixa fica lá. E quando as pessoas se vão, a caixa volta a ser só uma caixa, com objetos velhos e sem-valor.
Deve ser esse o encanto da caixa.

Sozinho

A gente tem medo de ficar sozinho. A gente tem medo porque sozinho não há parâmetro. Sozinho pode-se enlouquecer e nem notar. Ficar sozinho é perder-se, é um mar de branco, é infinito branco, é não ter apoio. Ficar sozinho é ficar sem base. Ficar sozinho é ter de conviver toda vez com as mesmas opiniões, com os mesmos pensamentos e não ter os dos outros pra se suprir de fontes. Ficar sozinho é não amadurecer. Ficar sozinho é não envelhecer.
Ficar sozinho é não saber se tempo é tempo, porque tempo é convenção e, portanto, poder sentir que em um segundo passou-se sua vida. Ficar sozinho é ser livre, mas não ter com quem usar de sua liberdade, o que a torna sem sentido. Ficar sozinho é ser livre. É ser livre, mas ser preso na sua própria cabeça. Quem é sozinho não precisa de mais nada. É por isso que temos medo de ficar sozinhos. Quem fica sozinho, vive somente dentro da sua própria cabeça. Quem fica sozinho não pensa, seus pensamentos são fato, afinal só eles existem. Quem fica sozinho não é, somos o que o mundo ao redor nos define. Quem fica sozinho não ama e não quer. Porque há de se ter um objeto pro verbo amar. Mas quem ama não quer só amar. Quem ama não quer se amar. Quem ama quer amar o diferente, que o completa. Quem ama, não é inteiro até que haja o objeto amado pra o completar.
A gente tem medo de ficar sozinho porque a gente tem medo de ser incompleto.

18 de abril de 2010

Trecho de "Certeza"

[...]

Tenho a certeza, esperança convencida
De que passas cada passo, Dia
E traças cada dia, Vida
No escuro infindo a que chamamos incerteza.

Flor da ilusão

Trago-te esse presente
que é alguma flor-nenhuma

Representa esse sentimento
que é sentimento-nenhum.

Cria essa expectativa
que é expectativa-nenhuma.

Acende teu belo corpo
que é corpo-nenhum.

Viaja de tudo pra ti
que, no fundo, é ti-nenhuma.

Recita a mais bela poesia
que é poesia-nenhuma

É só uma flor-nenhuma
do que há e do que há de haver.

17 de abril de 2010

Actionman

-Você é a melhor pessoa que eu poderia querer. Com você eu fiz coisas que nunca imaginaria, e tive experiências que nunca deixarão de ser parte da minha essência. Vivemos uma história muito boa recheada de romance, clichês, desentendimentos e o passado, tão estático e pronto, sempre andará comigo, mas a vida toma rumos diferentes. Dessa vez, nossos caminhos se separam, pra depois se cruzarem novamente. Ou não.
Queria que fosse diferente, mas eu sou uma garota que gosta de ação. No entanto, não é mentira quando eu digo eu te amo.
Não faz essa cara de choque. Eu sei que, de alguma forma, você já tinha notado que isso aconteceria. Você gostava de afirmar que não viveria sem mim, mas não tenha receio.
Pense: vai dar tudo certo. Logo você terá a menina mais bonita desse lugar e eu vou me arrepender (a grama do vizinho é sempre mais verde), mas tudo vai passar.
Porque, apesar de tudo, eu não minto quando digo eu te amo.
-É, parece que estamos nós dois aqui. Você vai pela direita e eu... sento aqui e te olho ir, pode ser?



PS.: Quase obviamente baseado em "Actionman", Those Dancing Days (praticamente escrevi a música em prosa, mas beleza) e quase obviamente "Apenas o fim" me ajudou no texto. :)

16 de abril de 2010

Tempos

O passado temos certeza do que é
Está lá, esperando pra ser lembrado
Tudo se desgasta, mas existe: está lá.
Nele, o que é feliz já está lá feliz

O futuro a gente monta como quiser
Sonha com ursos e cavalos brancos
Porque ele nunca existe realmente
O futuro é, por inteiro, nosso

Mas a gente prende o presente
achando que é mais feliz nele
que controlamos cada um dos seus compassos perdidos
Presente é o momento pelo momento

O agora sem futuro é vão.
O agora sem passado é triste.

PS.: Andei vendo "Apenas o fim" e é culpa da Kamila. :)